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23 de set de 2011

Uma grande série sobre Curitiba 28

O Morro do Piolho ataca: a favela é vermelha
Por: Coré-Etuba M. da Luz

Boa noite a todos.

Tempos atrás, enviei-lhes um texto intitulado “Direto da Zona Vermelha: a Império não tem Comando Sul”. Ao contrário do que alguns poderiam crer, o futebol não era o tema principal, mas apenas o gancho pra debatermos como Curitiba cresceu e se estruturou nessas últimas décadas, além de entrarmos um pouco no campo das frequências imateriais. Esse texto de agora é portanto meio que uma sequência lógica do anterior.

Um colega me perguntou se ainda acho que a torcida do Atlético é a maior da Grande Curitiba, pois ele falou que tem dificuldade em achar atleticanos em todas as partes[...]. Disse-lhe que é porque [...] a esmagadora maioria têm curso superior (mesmo que seja incompleto ou em andamento), logo ali logicamente os coxas seriam maioria, pois a torcida do Coritiba tem mesmo superioridade ampla entre os que têm mais renda e estudo formal. Só que nas bordas da cidade a enorme vantagem atleticana é indiscutível. E como na cidade há mais gente sem segundo grau que com segundo completo e/ou superior, ainda creio que a torcida do Atlético é maior, mas que a situação pode estar se revertendo.

Se algum coxa não gostar do que escrevi, ressalto que é minha opinião, é o que observo. Sou paranista (embora o Paraná Clube esteja quase encerrando as atividades), o que me faz neutro na disputa Atlético x Coritiba. Posso cometer algum [erro] de avaliação, mas esse não é motivado por desejos emocionais, pois pra mim tanto faz qual das duas torcidas é maior, é o que quero dizer.
Até porque novamente o futebol será um pretexto pra falar de Curitiba.
Reparto com vocês o que escrevi a ele:

Saiu uma notícia na Tribuna que vem de encontro ao que debatíamos ontem. Veja aí:

Briga entre torcidas começa antes mesmo do jogo

Vamos ignorar os tumultos que ocorreram próximos ao jogo e nos fixarmos na briga que houve pela manhã na Cidade Industrial, Zona Oeste. Diz a matéria: “um grupo de mais de 100 pessoas com camisa do Clube Atlético Paranaense, que seria do Morro do Piolho, cruzou o viaduto do Caiuá, na Rua Raul Pompeia, e surpreendeu mais de 30 torcedores do Coritiba”.

Morro do Piolho é uma das favelas da região das vilas Sabará e Conquista, que ficam do outro lado (tendo o Centro como referência) do Contorno Sul.
É um lugar tenso. Mesmo a maioria das favelas tendo sido urbanizadas (e o processo prossegue onde ainda não foi) o 'espírito de favela' permanece. Você sai da favela, mas a favela não sai de você. Daí o apelido “Morro do Piolho”.
É de fato região de morros, e por ser muito pobre aquelas casas uma em cima da outra se parecem muito com a periferia de São Paulo, de onde foi importado o modelo. Sempre me sinto em Caieiras, Mauá ou Capão Redondo quando subo os morros do CIC, pois é ipsis literis a configuração.

Descrito o lugar, voltemos a falar das torcidas. 100 atleticanos emboscaram 30 coxas. É claro que a violência é lamentável, é tão óbvio que nem perderemos tempo com isso. Aqui quero me fixar na proporção vermelho-verde. Na classe média, entre os que terminam o 3º ou ao menos o 2º grau a torcida do Coxa é maior. Fato. Entre as 3 torcidas (Império, Fanáticos e Fúria) só a Império tem “Comando Jardim Social”, só a Império tem “Comando Bigorilho”, só a Império tem “Comando Água Verde”, sendo que o Água Verde é um dos maiores da torcida. Não por acaso seu apelido de “Imprédio”. Isso deixa bem claro qual a base da torcida verde, são os bairros mais arborizados, mais verdes em outros sentidos também.

Agora entre os que tem 2º ou mesmo 1º grau incompletos a torcida do Atlético é maior. Nas favelas da Zona Oeste e Zona Sul a proporção é mais ou menos essa aí mesma, 3 atleticanos pra cada coxa. Por Zona Oeste me refiro a CIC e por Zona Sul ao Sítio Cercado e Tatuquara. Fora a CIC a Zona Oeste quase não tem periferia, ao contrário é a região mais rica da cidade, então é capaz até do Coxa ter maior torcida lá. E nos demais bairros da Zona Sul, embora também pobres, a divisão é mais equilibrada entre os times. A questão é que a CIC e o Sítio Cercado são os dois bairros mais populosos da cidade, com 300 mil habitantes juntos, e o Tatuquara será o terceiro até 2020. E como um outro colega observou no momento, nas cidades mais pobres da RM a proporção de atleticanos pra cada coxa também deve ser essa de 3/1.

O detalhe é que os 100 que fizeram o arrastão nem foram ao jogo. Porque havia poucos atleticanos no estádio, e certamente não havia um bloco de 100 só do Morro do Piolho. Pode crer que não havia 100 da Cidade Industrial inteira dentro da torcida do Atlético. Eles foram apenas pra emboscar mesmo, pois sabiam o ponto de encontro coxa próximo ao terminal. Aliás, exatamente por ser perto do terminal mostra que esses 30 coxas vieram de diversas vilas da região, enquanto os 100 “seriam do Morro do Piolho”, ou seja apenas uma favela. Um sábado eu voltava de Campo Largo de ônibus, e bem naquela região cruzei com o Comando Oeste da Império indo ao jogo. Eram cerca de 20. Não havia sequer um negro, nem mesmo mulato. 19 brancos e 1 japonês. Só isso já diz muito da pouca presença verde nos bairros “em que a parada é mais quente”.

Toda regra tem exceção, e o “eixo do Rio Atuba” é a região de periferia que o Coxa se dá melhor. Assim Colombo e talvez Santa Cândida, na Zona Norte, e Cajuru, Bairro Alto e Pinhais, na Zona Leste, oscilam entre um equilíbrio e um leve predomínio verde. Mas bem menor que o obtido pelo Atlético nas extremidades Sul e Oeste. Digamos que a proporção seja 6/4 em favor do Coxa. E claro, a Zona Norte é inteira verde, mesmo em suas regiões de classe média baixa (aqueles que ascenderam a classe média na era Lula) como Barreirinha, Abranches, Pilzarzinho. Só que essa parte tem algumas favelas, é claro, mas nem se compara a outras partes da cidade. Uma favela grande das Zonas Sul, Oeste (CIC) e Leste é maior que todas as favelas da Zona Norte juntas – isso no município de Curitiba. Na parte metropolitana da Zona Norte há favelas que não devem nada a suas irmãs em outras partes.

O fato aqui é que o Coxa predomina amplamente na classe média, seja ela média-alta ou média-baixa. E também tem boa presença em Colombo, Cajuru e Pinhais. Mas nas demais bordas da cidade o domínio vermelho é incontestável. Por isso talvez a torcida do Coxa seja mesmo maior no município de Curitiba, que tem padrão mais alto. Mas na Grande Curitiba (capital e subúrbios somados) o Atlético tem mais torcida.

Até o começo dos anos 90 não era assim. O Coxa era maior, ninguém contestava. A cidade era mais verde, em todos os sentidos. Era mais arborizada, só que a mata deu lugar a casas, tanto invasões e loteamentos populares como condomínios de luxo, verticais e horizontais. E era menos vermelha, também em sentidos muito mais abrangentes que o futebol.

Em 1994, o município de Curitiba teve por volta de 50 assassinatos. Em 2010 teve 1000. Sim, é isso, multiplicou por 20 em 16 anos.

E o Bairro Novo (Sítio Cercado, Zona Sul) é a síntese desses dois processos que se entrelaçam, a mudança do perfil da cidade e de qual é a maior torcida. Hoje é vermelho, é uma das regiões mais violentas da cidade. Várias fontes já me relataram que os tiroteios são quase diários, que eles não dormem perto de janelas voltadas pra rua porque senão correm o risco de acordarem no além. E o Bairro Novo é a sede do Comando Zona Sul da torcida do Atlético, que pertencia a Fanáticos e se separou, aliando-se a Ultras, arqui-rival da Fanáticos dentro da torcida rubro-negra. Isso é outro rolo que não entrarei em detalhes aqui, pois o que nos importa é apenas ressaltar o domínio absoluto do Atlético na região.

Pois bem, o Bairro Novo é de 1992. Antes disso a região era verde – literalmente, pois era uma grameira. Isso retrata com maestria o que quero dizer. Curitiba era de maioria Coxa até o meio pro fim dos anos 90. Foram o inchaço da Zona Sul e CIC e também da Região Metropolitana que viraram a balança a favor do Atlético. Claro, o título de 2001 ajudou e muito, a inversão não ocorreria sem ele. Mas também não ocorreria sem esse influxo migratório, que veio basicamente do interior do Paraná (onde ninguém torce pra times daqui) e em menor medida de estados vizinhos (SP, SC e RS).

Ou seja, chegou aqui toda uma massa 'virgem' nessa disputa, que optou em sua maioria pelo Atlético. Tivesse que que reverter um público já conquistado pelo rival e um só título brasileiro não bastaria, precisaria de uns 3 ou 4 ao longo de uma geração, pra que seus filhos contrariassem os pais. Por isso o São Paulo precisou de muito mais títulos e de um tempo muito maior pra passar o Palmeiras. E só foi possível porque o alvi-verde paulista não ganha nada desde os anos 70, com um breve hiato na era Parmalat.
…...........

Só que obviamente sei que tudo na vida é cíclico. Tudo no Universo é energia, e energia nunca fica estagnada, está sempre formando novas configurações e dissolvendo as antigas. Por isso o I Ching (que já tive a oportunidade de ler) se chama “o livro das mutações”. Uma configuração material que observamos é retrato de uma determinada conjuntura energética, que pode até já ter se alterado. Mais ou menos como quando olhamos pro céu. Algumas estrelas que vemos não existem mais na dimensão física, estamos na verdade observando seus fantasmas. Pois por estarem muito, muito distantes da Terra sua imagem às vezes leva dezenas de milhares de anos pra chegar até aqui. Então as vezes quando enfim chega simplesmente já não existe, estamos vendo aquela estrela como ela era há 10 mil atrás (quando Raul Seixas nasceu), mas ela já retornou pro plano imaterial antes de Jesus encarnar. Já pensou por esse lado?

Bem, o objetivo aqui não é discutir astronomia. É só pra exemplificar que as condições de energia (das quais o que vemos no plano material é projeção, é uma foto de um momento que pode já ter se dissolvido) estão sempre mudando. É cíclico. Ao dia se sucede a noite, depois amanhece de novo apenas pra voltar a escurecer algumas horas depois, e assim eternamente.

Quando digo que o Atlético é maior torcida da Grande Curitiba, é fato. Mas um fato que teve seu ápice na primeira década do milênio, que já se encerrou. Após sua maior conquista (o Brasileiro-01 obviamente) o Atlético se retraiu até em termos de campeonato estadual, de 2003 pra cá só ganhou 2, enquanto o Coxa venceu 4 vezes, e dificilmente deixará de ganhar esse ano [ refere-se a 2011, sendo que o Coxa venceu-o]. Então está 4x2 (mesmo placar do clássico) e muito provavelmente irá pra 5x2. É uma diferença considerável, porque títulos é o que marca a história de um clube, é o que fica na memória.

Sim, o Coxa está num iô-iô, se alternando entre as divisões do nacional, enquanto o CAP se mantém na parte de cima. Porém pouco adianta disputar a primeira apenas com o objetivo de disputá-la de novo no ano seguinte. Ano passado a campanha do Atlético foi boa, verdade, mas vinha de 3 anos em que eles se salvaram do rebaixamento sempre na última partida em casa, na última ou penúltima rodada do campeonato. Então mais vale cair pra segunda duas vezes mas se firmar como patrão da estância do que ficar na primeira mas não vencer nem estadual, e olha que até clássico tá difícil o Atlético levar, não ganha desde 2008, o atual presidente nunca venceu o maior rival.

Isso pode levar a uma nova configuração, até porque os excluídos e iletrados mudam mais rápido suas posições, ao contrário dos estabelecidos, que prezam pela estabilidade até porque o status quo lhe é benéfico. É fato que o cara que veio do interior nos anos 90 e 00 e se instalou no Bairro Novo, no Morro do Piolho, em Tamandaré e na Fazenda Rio Grande optou pelo Atlético, que então ganhava tudo.

Só que estando há 3 anos sem ganhar clássico (e ainda por cima ficando de 4 com frequência, dentro e fora de casa) vai ser difícil transmitir essa hereditariedade. Pois por mais que respeite e ame seu pai todo moleque quer ver o time ganhando. Some-se isso ao fato que nas quebradas muitas vezes o pai embuchou a mulher e se mandou, é ela quem cria os filhos sozinha enquanto o cara já mora com outra, saiu de Curitiba ou mesmo já desencarnou, e não de forma natural. Aí o pai se torna o anti-exemplo. Uma geração atleticana negligente com os filhos pode levar a uma geração coxa até pela própria vontade de se afastar do pai, então.

Somando tudo isso, pode ser que a roda esteja girando novamente, que de 2015 pra frente o Coxa recupere sua hegemonia que durou todo o século 20. O que lhe falei, que o Atlético foi maior na década passada e ainda é hoje é verdade.

A favela é vermelha, e não verde. Mas não necessariamente sempre o será, até porque está sendo urbanizada.

Vou ficar atento a qualquer indício disso. Não quero ficar vendo 'fantasmas de estrelas' e achando que essa realidade é imutável. Nada que pode ser materializado é imutável. Só Deus, a Vida (inclusive a nossa) e a evolução são eternos. O resto é cíclico.

Deus o ilumine pra todo sempre.
“Deus proverá”

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