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23 de set de 2011

Uma grande série sobre Curitiba 29

O Sul se integrou ao Brasil
Por: Coré-Etuba M. da Luz

Boa tarde a todos.

Receberam ontem meu texto “O Morro do Piolho ataca: a favela é vermelha”.
Ali uso o gancho do futebol pra falar sobre Curitiba, sobre como a nova leva migratória que chegou nas últimas duas décadas mudou o perfil da cidade. Me centrei na questão das classes sociais.
Um colega me fez uma réplica, apontando pro fato das raças também estarem altamente envolvidas no tema, recapitulando inclusive ondas de migração anteriores a que me fixei. Envio-lhes o que recebi e o que contra-argumentei. Comecemos pelo que ele me escreveu:

“Nós já conversamos diversas vezes sobre esse assunto, então, tenho certeza que não direi nada de novo mas, mesmo sob o risco de me repetir, gostaria de acrescentar alguns detalhes. Só lembrando que a zona verde não é só uma questão de classe social mas também de origem e permanência. O Coxa construiu sua hegemonia quando a classe trabalhadora era de polacos, eslavos e alemães recém chegados. Quando na falta de negros o preconceito se voltava aos polacos, não esquecemos o dito racista que o polaco, aquele "plantador de batata", era o negro virado do avesso.

E hoje o Coxa domina nas regiões onde o povão descende desses povos. É a Curitiba da casa de polaco de madeira, com um grande quintal (hoje dividido entre várias casas e famílias). E o CAP era o time da elite. No caso a elite seria representada pelos os que aqui já estavam, e eram, por oposição, brasileiros. Enquanto os migrantes eram a massa trabalhadora. Não esquecemos que no futebol a rivalidade clubística acaba encampando a "luta de classes" (talvez o termo encampar não seja preciso, e no lugar deveríamos dizer encenando), e em Curitiba, devido às suas peculiaridades essa encenação se deu entre nacionais e estrangeiros.

Mas nos anos 90, como você apontou, a maré virou e chegou uma nova corrente migratória a Curitiba, que mudou a feição da cidade. Esses novos migrantes assumiram o lugar de massa trabalhadora, posto que os descendentes de alemães, polacos, etc, estando já há algumas gerações na cidade, já tinham ascendido (boa parte dela pelo menos) à classe média. E os novos imigrantes, que não são europeus, identificaram o Coxa como um time racista, devido à estória do coxa-branca.
Esse fluxo entre Coxa e CAP, na verdade, obedece a dinâmica entre estabelecidos e excluídos onde cada grupo que chega busca meios de legitimização. Mas uma vez estabelecidos a dinâmica muda, como você colocou no caso do pai atleticano e filho coxa. Pois a 2ª geração de nascidos no Tatuquara não necessariamente vão identificar o Coxa como racista. E, daí, volta a valer a dinâmica dos títulos”.

Aqui se encerra o que recebi. Como sempre daqui pra baixo tudo fui eu quem escrevi, mesmo o que estiver em itálico. Vamos lá.
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Pois é, concordo com as colocações sobre os polacos, foi isso que quis dizer por classe média-baixa da Zona Norte, a periferia antiga, que também se espalha pelas Zonas Oeste, Leste e Centro-Sul, nesse último caso destaca-se a região das 3 vilas (Fanny, Guaíra, Lindóia), V. Hauer, Boqueirão e na metade ocidental (mas ainda dentro da Zona Sul) partes do Capão Raso.
Antes das favelas ganharem corpo, esse era o lado esquecido da cidade. Dia desses fui fazer pesquisa em um beco, próximo da divisa do Butiatuvinha com Santa Felicidade. Era a situação que descreveu, descendentes de europeus morando em muitas casas de madeira em um mesmo terreno, com uma pequena entrada de terra. Tirando o fato que lá felizmente não há quadrilhas de covardes como PCC e CV pra perturbar, no resto as condições são as mesmas da favela.
Diversas dificuldades de todos os tipos, casas velhas que os cupins comeram tudo, fechaduras e janelas quebradas, e frequentemente a mulher criando sozinha filhos e por vezes netos. Na casa que foi sorteada pra responder só moravam mulheres. A matriarca, duas ou três filhas e uma neta. Ela estudou pouco e ganhava $600 sendo 'serviço geral' em um restaurante, de domingo a domingo 14 horas por dia. Rumo que uma das filhas já espelhou, engravidou adolescente e parou de estudar, não tem nem 1º grau e também trabalha em serviço braçal. E todas loiras do olho verde, sobrenomes italianos que dariam direito a cidadania europeia. Citei esse mas é claro que já vi centenas de outros casos, não só de entrevistados mas também de colegas entrevistadores que conheci ao longo desses já 9 anos que sou pesquisador. É o gueto branco, realidade que não ignoro.
Sua análise histórica é correta mas não invalida o que coloquei lá. Por isso não entrei nesse mérito. Essa massa esbranquiçada, que chegou aqui nas décadas de 60 a 80, representa o ciclo anterior, o Sul do Brasil, a Europa, e escolheu o Coxa. Sim, eu sei, os europeus chegaram muito antes disso ao Brasil, mas boa parte deles foi pro campo, quando a agricultura absorvia infinitamente mais mão-de-obra que hoje.

Pelo período compreendido entre as décadas de 60 a 80 me refiro a transformação desses agricultores em trabalhadores braçais urbanos. Quando eles deixaram as colônias agrícolas pra povoar os bairros que hoje são a base da torcida verde e branca. Às vezes até continuaram a residir no mesmo local, a expansão urbana é que engolfou o cinturão verde (aqui no sentido de 'agrícola' mesmo), incorporando-o a selva de pedra. Já escrevi sobre isso com mais detalhes naquela grande série sobre Curitiba, especialmente no texto “E Lamenha Lins criou a Zona Oeste”, onde detalho como colônias criadas pra absorver imigrantes europeus e fornecer alimento pra cidade se transformaram em bairros urbanos como Augusta, São Miguel, Orleans e outros.
Tenham os polacos ido pra cidade ou a cidade ido até eles, o certo é que antigamente a periferia de Curitiba era muito mais europeizada que hoje. Pois a geração seguinte dos migrantes tem outro perfil. São mais escuros (comparando com a polacada com certeza) e trouxeram a cultura brasileira, do Sudeste e do Nordeste, pra cá.

Pois embora a maior parte deles tenham nascido no interior do Paraná, uma parcela considerável é de paulistas, e nesses paulistas se incluem muitos filhos e netos de nordestinos. E todos morando nos bairros que surgiam nas extremidades Sul e Oeste (pode-se incluir Norte e Leste se considerarmos a Região Metropolitana e não apenas o município de Curitiba) nos anos 90 e 00 fez com que mesmo os paranaenses manifestassem mais a cultura de outras regiões do país. Até porque o Norte do Paraná foi povoado por paulistas e mineiros, ou seja quem veio pra cá era paranaense de nascimento mas filho de pessoas do Sudeste. Com os Pés-Vermelhos com ascendência sudestina se somando aos paulistas (muitos de ascendência nordestina), a classe trabalhadora de Curitiba deixou de ter feições exclusivamente centro-europeias. E essa leva escolheu o Atlético.

Andava nos becos e ruas da Vila Verde (CIC, Zona Sul) esses dias e filosofava: pronto, agora o Brasil é um só. Hoje, com essa "cidade de laje" que se formou em toda Z/Sul, e partes da Z/Oeste (CIC) e Z/Leste (Cajuru e Uberaba) a periferia de Curitiba enfim é igual a periferia de Brasília, São Paulo e Recife. E não é só Curitiba. Em minhas idas a Joinville observo o mesmo. Joinville cidade alemã? É uma piada. Um dia foi com certeza. Hoje a Joinville alemã é uma lembrança que não existe mais, como aquelas Los Angeles e Miami em que o idioma inglês reinava absoluto.
A periferia em Joinville tá ficando cheia de cortiços (loja em baixo, 3 micro-quitinetes estilo quarto-e-cozinha em cima), e se Curitiba e Joinville estão se metamorfoseando dessa maneira pode-se considerar com certeza que as outras cidades médias e grandes do Sul estão indo no mesmo rumo. E nesse processo de abrasileiração a energia não está só 'descendo' do Sudeste e outras regiões do país. Há, e sempre houve, uma base de energia brasileira no coração do território europeizado em nossa pátria. É Porto Alegre, cidade que desde sempre foi muito mais abrasileirada e americanizada que Curitiba e boa parte do PR, SC e o próprio interior do RS.

(Nota: América é um continente e não um país, e ao continente me refiro por 'americanizada', que é distinto de 'estadunizada', não custa reforçar pra que seu cérebro não misture a definição correta com a corrente na mídia. Repetirei essa observação até o dia em que as pessoas começarem a falar 'estadunidense' pro que for dos EUA).

Fui algumas vezes a capital gaúcha, a primeira ainda em 1990, quando tinha 13 anos. Curitiba era totalmente europeizada na época. E Porto Alegre já me pareceu radicalmente diferente daqui. Sempre fui pra São Paulo, desde que me entendo por gente. Pois bem. A capital gaúcha a mim se parecia muito mais com São Paulo que com Curitiba, Joinville, Ponta Grossa ou Cascavel. O que é bom pois aí a energia brasileira não precisou só descer, havia "uma outra equipe construindo a ponte desde a margem oposta", digamos assim. Deus abençoe Porto Alegre, a mais leal das cidades brasileiras ontem, hoje e sempre.

Voltemos ao tema principal.
Com ou sem a ajuda da capital gaúcha, a questão é que essa nova leva de imigrantes mudou o Sul.

Agora Curitiba é mais brasileira, bem mais parecida com Porto Alegre e São Paulo (e também Recife, Salvador, Goiânia, etc) do que antes.
E o interior do Sul segue nosso exemplo. Esse pedaço do país de europeizado está ficando totalmente americano. Até o começo dos anos 90, vendo imagens da periferia de Curitiba ninguém diria que é uma grande cidade brasileira. Ande pelo Bairro Novo ou pela Vila Conquista (CIC) hoje. Eu me sinto em São Paulo quando vou lá, como já escrevi. Na mão oposta, um paulistano se sentiria completamente em casa. As duas levas de imigrantes, os polacos (décs. 60-80) e a mais recente (décs. 90-00) são distintas. E cada uma escolheu um time. Mas uma vez estabelecidas se entrelaçaram e se fundiram, até certo ponto.

O Sul virou Brasil, agora 100%.
A 'Europa brasileira' basicamente se dissolveu, se tornou América.

Voltando às torcidas, embora a fusão entre o velho e o novo tenha ocorrido, ainda se pode falar em região mais polaca ou mais americana. Partes da Vila Fanny, do Capão Raso ou da Vila Tingui são bem pobres, mas são nitidamente definidas como periferia antiga, onde o Coxa predomina. Ou seja, coloque por classe ou por etnia, o fato é que a polacada classe média baixa da Zona Norte é coxa-branca em sua imensa maioria, e a rapaziada mais escura da Grande Ferradura (o eixo que pega as extremidades Oeste, Sul e Leste, ou seja, vai do CIC até o Uberaba e Cajuru passando por toda a Zona Sul), que mora na laje e não na casa do fundo (a expansão urbana venceu mais uma dimensão) é atleticana na sua maior parte. Embora seus filhos podem não seguir seu exemplo, e perdendo pro Coxa de 4 e depois pro fortíssimo Rio Branco-AC, aí fica difícil mesmo.
Pra concluir, pra mim tanto faz qual torcida é maior. Até por essa situação ser altamente mutável, como escrevi no texto mesmo.
O que importa é que o Sul se integrou em mais uma dimensão ao Brasil, e isso não tem volta. 
O que dificulta em muito qualquer tentativa de se criarem tumultos contra nossa nação. Curitiba pode ser um pouco mais europeia que São Paulo, Recife e Brasília, e assim o é certamente. Mas a diferença se reduziu em 90% nos últimos 20 anos. Se tornou uma questão de estilo da cidade, mas não de mundos diferentes. Os bairros que viraram a conta em favor do Atlético uniram de forma indelével nossa cidade a nosso país. Joinville, Cascavel, etc, estão indo no mesmo rumo. Sempre haverá casas de madeira nas cidades do Sul. E felizmente, não quero padronizar tudo. Eu moro numa casa de madeira. Porém não se pode mais falar em dois Brasis. Isso é o que me importa.
Se essa integração já tardia se deve a massa atleticana, eu também sou atleticano. É claro que falo em termos simbólicos. Sou paranista e o serei até o Paraná encerrar as atividades, o que ocorrerá em breve. Depois não torcerei pra ninguém aqui. Acabei de dizer que me é indiferente a briga Coxa x Atlético. Foi uma metáfora pra afirmar que nossa pátria está acima de tudo e abaixo de nada. É alfa e ômega de minha existência.

E como quis mostrar nesses dois últimos textos, a imigração mudou a feição europeizada de Curitiba nessas últimas duas décadas. A cidade se tornou mais brasileira, e mais atleticana. Então agradeço a mudança. Pra mim tanto faz se Coxa ou Atlético tem mais torcida. Meu objetivo é que nosso país seja cada vez mais unido, e por isso escrevi o texto “Serra, mensageiro do ódio”, porque o candidato do PSDB jogou São Paulo e o Sul contra o resto do país, mesmo sabendo que iria perder.

Eu faço o contrário. O Brasil está acima de tudo. Por ele não temo a própria morte, como já diz o hino. Se a massa que uniu nosso país é atleticana, terão sempre meu reconhecimento e gratidão, foi o que quis dizer.

É isso aí.

Esteja sempre em paz.
"Deus proverá"
Pátria Amada

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