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13 de set de 2011

Uma grande série sobre Curitiba 6

Barcos e Prostíbulos
 Por: Coré-Etuba M. da Luz

Boa tarde.

Continuemos a falar sobre os nomes dos bairros de Curitiba e RM.

O Bom Retiro, na Zona Norte, herdou a nomenclatura do hospital psiquiátrico Bom Retiro, que pertence a Federação Espírita do Paraná. Antigamente, ele era do lado oposto da rua, onde hoje há uma faculdade. Eu sempre havia pensado que o bairro é quem havia nomeado o hospital, mas um dia descobri que foi o contrário, o hospital já se chamava Bom Retiro enquanto o local não tinha nome – ou tinha outro que me é ignorado.

O Bigorrilho, na Zona Oeste, deve seu nome a um puteiro. Era de propriedade de uma cafetina e prostituta, chamada popularmente de 'bigorrilha'. Essa palavra é uma ofensa, quer dizer pessoa incômoda, e um puteiro é exatamente isso, algo incômodo, que movimenta energias baixas, pois é frequentado por mentes dementadas e perturbadas, e me refiro tanto as trabalhadoras do local quanto a seus clientes. Alguns podem discordar mas minha visão é essa. E os moradores da região no início do século 20 concordavam comigo, por isso apelidaram a rameira de 'bigorrilha'. As imediações de sua casa de luz vermelha eram conhecidas como a região da bigorrilha, e com o tempo masculinizaram a palavra, que felizmente para os moradores do bairro perdeu seu sentido ofensivo.

Mesmo assim, alguns insistem em chamar o bairro de Champagnat, denominação que não será reconhecida por mim até que se torne oficial. Já houve um projeto de mudar o nome do bairro, mas não passou na câmara, talvez porque ao invés de simplesmente propor a alteração de nome de Bigorrilho pra Champagnat eles ainda queriam redefinir os limites, pois pretendiam engolfar também uma área que pertence ao bairro das Mercês. Realmente boa parte do que é conhecido por Champagnat está além do Bigorrilho, a antiga sede da Tuiuti e a Praça 29 de Março, por exemplo, estão de fato nas Mercês, então pros que defendem a mudança pouco adiantaria apenas trocar o nome do Bigorrilho mas deixar de fora do Champagnat partes que lhe são caras.

Só que isso criou um complicador, que talvez tenha sido determinante pra derrocada da iniciativa. A prefeitura não se opõe que um bairro troque de nome, se for o desejo de seus moradores, tanto que o antigo Capanema se tornou Jardim Botânico em 1992. Mas ela (a prefeitura) veta qualquer iniciativa que vise re-desenhar os limites entre os bairros.

Outras cidades não têm problemas com isso. Recentemente, uma parte do bairro São Cristóvão, no Rio de Janeiro, foi desmembrada, passando a se chamar Vasco da Gama, pra homenagear o clube de futebol. Alegou-se que Flamengo e Botafogo já eram bairros. Só se esqueceu de mencionar que nesses dois casos foram os bairros que nomearam os clubes, e não o contrário. Enfim, o fato é que o projeto foi aprovado, e agora existe o bairro Vasco da Gama na Zona Norte do Rio. Em Porto Alegre, o bairro Mário Quintana foi desmembrado do bairro Protásio Alves pra homenagear o poeta gaúcho.

Ambos os bairros surgiram no mesmo ano, 1998, e foram desmembrados de seus originais. São Cristóvão e Protásio Alves ainda existem, embora menores. Foi o que tentaram fazer aqui,desmembrar uma parte do Bigorrilho e das Mercês. Mas o que é permitido em outras cidade é interdito aqui. Se a população estivesse de acordo, o Bigorrilho poderia virar Champagnat, mas esse é o limite. Não se pode alterar fronteiras de bairros e nem fundi-los, assim o Bigorrilho continua sendo uma homenagem a uma prostituta e não ao padre Marcelino Champagnat, como alguns gostariam.

Eu não defendo e nem me oponho a mudança, mas só a adotarei depois de oficial, como já falei. Pelo mesmo motivo, “Ecoville” pra mim é ficção, e sempre será grafado entre aspas e com indicativo se estamos falando de fato do Mossunguê, Campo comprido ou Cidade Industrial.
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No caso da Boa Vista e Vista Alegre, nas Zonas Norte e Oeste, respectivamente, a origem é óbvia e é a mesma. Situados em lugares altos, os bairros ofereciam excelentes visões panorâmicas do Centro, vistas 'boas' e 'alegres', na opinião dos que ali estavam. Na Zona Central, a Água Verde se deve a um rio de mesmo nome, que nasce nas proximidades do estádio do Atlético e deságua no Rio Belém, na região da Vila Capanema, no Prado Velho, também Z/C.

Vizinho a Água Verde, vamos encontrar o bairro que tem a maior renda per capita de Curitiba, o Batel. A origem do nome desse caro bairro da Zona Central vem de palavra 'Bateau', barco em francês, daí o acidente com o Bateau Mouche, no Rio de Janeiro, no reveillon de 1989.
Voltando ao bairro da elite curitibana, segundo se diz, alguém estava indo a uma festa religiosa, e levava um barco em miniatura, que seria jogado em algum rio pra agradecer uma benção divina. Era uma réplica bem feita, inclusive trazia no casco um nome em francês, “Bateau alguma coisa”. Sabe-se lá o porque, após tanto esmero na confecção, o devoto deixou cair essa mini-embarcação na rua, onde ela ficou por uns dias. Os populares passaram então a chamar o local por 'região do Bateau'. É sabido por nós que 'bateau' se pronuncia batô, mas na época quem viu o barquinho na rua era desprovido desse conhecimento, falando a palavra como a lia. A seguir simplificou-se a grafia, mantendo-se então o nome do bairro como aportuguesação da palavra francesa que quer dizer 'barco'.
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O Batel, como é sabido, é o bairro que faz divisa com o Centro a oeste. Continuemos na Zona Central mas vamos cruzar todo o Centro rumo a ao bairro que o limita a leste, o Alto da XV. Seu antigo nome era Itupava. Ainda há algumas placas antigas, daquelas verdes que eram pregadas diretamente na parede das casas, que trazem esse nome, por isso creio que ele tenha perdurado até 1974. No duelo entre essas duas ruas paralelas, a XV de Novembro levou a melhor, e tirou da Itupava a primazia de nomear também o bairro.

Só pra encerrar a questão dos desmembramentos, a Cidade Industrial e o Centro Cívico foram caso de bairros que surgiram no território que já era ocupado por outros bairros. Mas foram frutos de políticas públicas oficiais, e não resultado da iniciativa de alguns de seus moradores. Como o nome indica, são bairros que cumprem funções bem específicas. Não sei a data em que eles foram criados.

Acho que o último desmembramento de Curitiba ocorreu em 1974, na última vez que houve alterações nos traçados dos bairros. O Capão da Imbuia se separou do Cajuru, virando um bairro a parte. Isso explica porque o ônibus Cajuru, que sai da praça Carlos Gomes, não passa pelo bairro do Cajuru. Escreverei mais sobre o Cajuru em particular e a Zona Leste em geral em um próximo email, onde direi porque o hospital do Cajuru está no bairro do Cristo Rei.

Por hoje podemos encerrar. Mando pra vocês alguns mapas bem interessantes. Vejam como progrediu as expansão das favelas entre 1978 e 2005.

Quanto as fotos, uma mostra a Praça Rui Barbosa, no Centro, e a outra o Parque Tanguá, no Pilarzinho, Zona Norte.

Parque Tanguá (Pilarzinho) Zona Norte
Praça Rui Barbosa (Centro)



Favelas 1978
 

Favelas 2005

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