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14 de set de 2011

Uma grande série sobre Curitiba 8

Se tem eleição, tem invasão!
Por: Coré-Etuba M. da Luz


Bom dia a todos.

2010 é ano eleitoral, e a medida que o pleito se aproxima, eu fico pensando aonde será a área que será invadida em Curitiba nesse ciclo eleitoral? Digo isso porque conforme eu indiquei no título:



Sempre há grandes invasões de terras em nossa cidade às vésperas de votações.

É uma tradição que já remonta no mínimo 14 anos, ou sete eleições. Eu disse no mínimo, talvez seja mais antiga, mas 1996 é o máximo que minha memória consegue voltar no tempo e afirmar com certeza.
Na última eleição, em 2008, isso ficou nítido a todos, pois houve uma grande invasão na Cidade Industrial (Zona Oeste), que foi muito noticiada na mídia, onde alias saiu erroneamente como Fazendinha ou Campo Comprido. Esses idiotas que trabalham na imprensa conseguiram dar duas versões, e ambas erradas.
O terreno invadido fica na Rua João Dembinski, que é por onde passa o Interbairros 4.
A Rua João Dembinski começa e termina na Cidade Industrial, onde tem 100% de seu território. Fiz esse apêndice pra falar dos bairros porque é importante, escreverei mais em breve sobre os débeis mentais que tentam negar a existência da CIC, 40 anos depois dela ter sido criada, colocando suas vilas no Campo Comprido, Fazendinha e Capão Raso.


Estabelecida sua localização correta, voltemos a falar da invasão em si. Nesse caso específico, o mentor da ação foi o próprio dono do terreno invadido, Marcelo Almeida, filho do já desencarnado Cecílio do Rego Almeida, o fundador da construtura CR Almeida, que abocanhou bilhões dos cofres públicos de nosso estado por meios nem sempre lícitos. Embora o patriarca CR Almeida preferisse a companhia do diabo do que a de Requião, o filho tinha o 'coração mais puro', ou então era mais pragmático, tinha sede de poder pra mostrar que também era alguém sem a fortuna do pai. O fato é que Marcelo Almeida se aliou ao arqui-inimigo de seu pai e foi nomeado por Requião diretor do Detran – há muita podridão em tudo isso, [...]


O fato é que quem é desonesto é sempre desonesto, e Marcelo Almeida foi o mandante da invasão de seu próprio terreno, na CIC, nas vésperas da eleição de 2008. É uma área muito grande, cerca de metade do tamanho do bairro Alto da Glória, por exemplo, e que consolidada seria moradia pra 10 mil pessoas, se a invasão não tivesse sido desmantelada. Marcelo Almeida era candidato a vereador e assentou de forma irregular mais de mil famílias em sua propriedade, fazendo campanha maciça ali, prometendo a permanência caso fosse eleito. Não foi, e poucos dias depois da votação, a polícia expulsou os invasores.
É de minha opinião pessoal que de fato ele 'mexeria os pauzinhos' com Requião (que em última análise era quem autorizava ou vetava a ação de reintegração de posse pela PM enquanto era governador) e a invasão de fato teria permanecido se ele tivesse sido eleito. O mesmo artifício foi tentado por outra aliada de Requião, Bete Pavin, em Colombo (Zona Norte – RM), também sem sucesso. Falarei mais sobre isso depois, mas vão dando uma olhada com quem estamos lidando.


http://www.fabiocampana.com.br/2008/08/fabio-camargo-e-beti-pavin-os-politicos-que-mais-enriqueceram/

Sobre esse Fábio Camargo eu prefiro nem comentar, tamanha é a podridão desse 'cidadão'. Vamos nos ater às ocupações irregulares de lotes. Mesmo tendo perdido a eleição e então mandado a polícia 'limpar' seu terreno, Marcelo Almeida saiu ganhando com a invasão, pois ele já havia sido multado pela secretaria de meio ambiente por fazer desmatamento ilegal no local. Quando houve a invasão, os ocupantes derrubaram eles mesmos as árvores que 'incomodavam' o proprietário, fazendo o serviço sujo por ele sem que esse fato possa ser comprovado na justiça.


Tudo somado, a verdade é que essa foi uma invasão muito grande, que atraiu muita atenção da mídia, até pelo comércio descarado e aberto de lotes que estava ocorrendo, ficando nítido que se havia alguns sem-teto também haviam centenas de oportunistas lucrando, e, somando-se tudo isso a derrocada de Marcelo Almeida, tornou-se inviável a criação de mais essa vila em Curitiba – pelo menos por hora, já houve precedentes de terrenos que haviam sido invadidos em um ciclo eleitoral, foram desocupados mas a seguir re-invadidos em eleições posteriores.

É sobre isso que falarei agora, o modus operanditipicamente curitibano de se fazer ocupações irregulares de terras às vésperas da eleição, se aproveitando do fato que nenhum governador ordenará retiradas compulsórias antes da votação, pois podem ocorrer tumultos que repercutirão mal nas cabines eleitorais.


Enfim, 2 anos atrás, ficou nítido a todos que há políticos que promovem invasões com fins eleitoreiros. Mas nem tão divulgado foi o fato de essa tradição é antiga. Todos os casos ocorreram no segundo semestre, uns meses antes da votação, pra garantir que a invasão se assente (ou seja, construam-se casas, que são mais difíceis de retirar do que barracos de lona) no período de 'imunidade'. Vou falar pra vocês apenas os casos que eu lembro, com certeza ocorreram outros. 


Vamos recapitular:


1996 (pleito municipal): invasão de um terreno no Uberaba (Zona Leste) às margens da BR-277, a Rodovia das Praias. Essa invasão se manteve, e o local já foi regularizado e urbanizado pela prefeitura.


1998 (pleito federal e estadual): complementação da ocupação de dois anos antes. Dessa vez, ocorre a maior invasão da história da cidade, quando cerca de 10 mil pessoas ocupam uma extensa área na divisa leste do município, da BR-277 até a Avenida das Torres. Diversas vilas do Uberaba surgiram nessa oportunidade, como Iasmin (já retirada), Ilha do Mel (já retirada), Alvorada, Audi, União, Ferroviária, Reno, Solitude 2, Icaraí, entre outras. A prefeitura já fez diversas intervenções na área, e o enorme trabalho de integrar essa grande favela a cidade está quase concluído. Uma parte dos moradores foi transferida pro Uberaba mesmo (no próprio local, pra um loteamento chamado Jardim Iraí, ou então na beira do Rio Belém, no Jardim Primavera, perto de minha casa), e uma parte pro Sítio Cercado (Zona Sul), nos conjuntos Sambaqui e Novo Horizonte (popularmente conhecidos por 'Cidade de Deus' – falarei sobre a região em outra oportunidade). A invasão se manteve, e está sendo regularizada, apenas pequenos trechos foram retirados. Como disse, as remoções e urbanização estão no estágio final, que deve ser concluída ainda antes da eleição. Não deixa de ser irônico, que uma eleição cria e outra ajuda a acabar com uma favela.


1999: Não é ano eleitoral, mas é quando ocorre a invasão da Terra Santa, Tatuquara, Zona Sul. A citei aqui porque suas expansões se darão em anos de eleição.

2000 (pleito municipal): Surge a primeira etapa de ampliação da Terra Santa. A invasão é retirada.



2002 (pleito federal e estadual): Segunda expansão da Terra Santa. Essa permaneceu, se chama “Cantinho do Céu”, e está sendo urbanizada. Em outro ponto da Zona Sul, na Rua Pedro Gusso, Novo Mundo (divisa com o Capão Raso), duas invasões vizinhas também surgem às vésperas da eleição, nos terrenos das falidas construtoras Brejatuba e Cidadela. Pra quem vai em direção a CIC, é a direita, antes do posto de saúde Vila Feliz. Uma das invasões foi retirada, e foi construído um conjunto de prédios verdes no local - essa aliás era a destinação inicial do terreno, abrigar prédios. A outra permaneceu, e ainda não está sendo regularizada pela prefeitura. Veio se somar a um conjunto de favelas que já existia no Novo Mundo, na Vila Formosa. Não sei o nome da vila até hoje, e me refiro a ela por 'Cidadela', embora não tenha certeza se ela está no terreno que pertenceu a essa construtora ou a outra.

2004 (pleito municipal): Nova ampliação da Terra Santa, naquele mesmo terreno que já havia sido invadido em 2000. Eu estava trabalhando pelo Ibope ali perto, no Jardim da Ordem, e presenciei a invasão crescendo, pois ela durou vários dias. A cada dia que íamos lá podíamos ver mais mais barracos de lona preta ocupando o morro, pois o núcleo foi próximo a linha do trem e veio descendo em direção ao rio. Dessa vez a invasão não foi retirada, e ganhou o nome de Bela Vista. Há outras Belas Vistas em Curitiba, então cuidado pra não confundir quando ler no jornal.

Essa invasão uniu as metades oriental (Vila Pompéia) e ocidental (Jardim da Ordem) do Tatuquara, que até então eram separadas por uma área verde – posta abaixo pra dar lugar as casas. Ficou 3 anos sem receber rede de luz, e era impressionante passar por lá e ver aquele emaranhado de fiações clandestinas, que causaram muitas mortes por eletrocução, pois os fios caiam e eram descascados, então em dia de chuva podia ser fatal pisar em poças d'água. Em 2007 apenas a Copel resolveu instalar os potes oficiais, e agora em 2010 (por causa da eleição) a prefeitura anunciou que a área será regularizada e urbanizada. A Bela Vista se uniu a favela Beira-Rio, que também está sendo urbanizada.

2006 (pleito federal e estadual): Não houve invasões às vésperas da eleição. Achei estranho, pois quebrou uma tradição de então 10 anos. Mas eu não estava enganado. Os políticos que promovem invasões (são vários, mas entre eles certamente está o ex-governador Requião) estavam apenas aprimorando suas técnicas, e planejando melhor sua ação. E ela veio, em março de 2007. Foi o chamado 'março vermelho', e não sem razão, pois foram 4 invasões simultâneas na Zona Oeste. Uma, no Campo Comprido, foi retirada. Não é a mesma da que ocorreu no ano seguinte, sobre a qual falei na abertura do texto. Essa de 2007 era de fato no Campo Comprido. Não perdurou.
Mas bem próximo dali haviam ocorrido outras três invasões, que são vizinhas e formaram uma só. Duas foram no bairro de Santa Quitéria, e uma no bairro do Portão. A diferença de bairro é porque uma está de um lado da Rua Rezala Simão (ao lado da linha de alta tensão) e outra do outro, sendo frente a frente, mas cada uma em um bairro. Seja como for, as 3 são vizinhas e se configuram como a mesma coisa. Pelo menos parte da invasão também se seu em terrenos de propriedade da falida construtura Cidadela, situação que alias se repete muito pela cidade, pois os terrenos estão em um vácuo jurídico de massa falida, o que dificulta ações de reintegrações de posse. O local é chamado de Portelinha, em homenagem a uma novela da Globo em que Antônio Fagundes vive um líder sem-teto que organiza uma ocupação com esse nome. Também veio unir seu território com invasões mais antigas que existiam no local.

2008 (pleito municipal): houve duas grandes invasões promovidas por Requião e seus aliados, das quais já falamos. Além daquela na Cidade Industrial, na região da Vila Sandra, houve uma outra em Colombo, no bairro Roça Grande, às margens do Contorno Norte. As duas, se tivessem permanecido, seriam expansões de ocupações irregulares vizinhas mais antigas, mas não foi o caso. Baixada a poeira das campanhas eleitorais, e conhecidos os vencedores nas urnas, a PM desocupou as duas áreas, com 3 dias de diferença.

2010: Façam suas apostas. Aonde as lonas pretas atacarão dessa vez? Ou enfim chegará ao fim essa tradição tão curitibana quanto o leite quente? Se for esse o caso, teremos que esperar até abril pra saber, pois já há precedentes das mesmas pessoas que sempre estão por trás das ocupações terem esperado até março do ano seguinte pra agir.

Breve saberemos.
......

Vamos agora às fotos.
Uma mostra o bairro do Uberaba (Zona Leste) a partir da BR-277. É exatamente a área que foi ocupada em 1998. Essa foto é de 2002, e muita coisa se modificou nesses 8 anos. Aquele espaço vazio, em marrom, já foi ocupado. Foi exatamente pra ali que foram transferidas as famílias que moravam em palafitas no Jardim Iasmin, que está a esquerda do espaço retratado pela foto (e que foi cortada propositadamente da imagem, pois era uma favela miserável – em 2002 ela ainda existia). O local pra onde essas pessoas foram removidas se chama Jardim Iraí. Reparem que lá no fundo há alguns barracos sobre o mangue, no Jardim Icaraí. Ali se realizaram as 2 maiores chacinas de Curitiba. 8 pessoas foram mortas no Natal do ano passado, e 6 haviam sido assassinadas em um carnaval no início da década passada, em 2001 ou 2002, não estou bem certo. A região enfim está sendo urbanizada, e todos esperamos que esses lamentáveis episódios de violência não venham a se repetir.

Pra atender essa região, a prefeitura criou em 1999 a linha Vila Reno, que sai do Terminal Centenário. Ela já teve duas expansões, pois vai sendo ampliada a medida que o processo de urbanização avança. Quando foi criada, a linha apenas atravessava a BR-277 e por ali ficava. À medida que as vilas vão sendo integradas ao mapa oficial da cidade, a linha vai se alongando pra chegar nelas. Numa segunda etapa, ela alcançou a Vila União, e mais recentemente a Vila Audi. A próxima ampliação, quando o Icaraí for urbanizado (o que já está em andamento) será a última, e levará a linha até próximo a Avenida das Torres, enfim integrando a cidade essa enorme invasão de 12 anos atrás.

Outro detalhe: tudo o que está a leste a linha do trem nos bairros do Cajuru, Uberaba, Boqueirão e Alto Boqueirão faz parte tanto do Parque Nacional do Iguaçu quanto da Apa (Área de Proteção Ambiental) do Iguaçu, logo não deveria receber moradias - uma das invasões no Cajuru alias se chama "Parque Nacional", e é exatamente porque está numa área de parque nacional. Nos dois bairros da Zona Leste já não há mais o que fazer pra salvar a Apa e o parque. As invasões são muito grandes e estão consolidadas, se fosse pra remover teria-se que criar quase uma nova cidade pra acomodar tanta gente, então serão retirados apenas os que estiverem em áreas de risco e os demais serão regularizados onde estão. Breve falarei mais sobre isso. 

Na Zona Sul a situação não está tão degradada. No Boqueirão não há grandes invasões dentro do parque, apenas pequenas faixas paralelas a linha do trem, que são de fácil remoção. No Alto Boqueirão há a Vila Pantanal, que está sendo regularizada, mas a prefeitura promete agir com rigor pra evitar novas ocuapações no território da Apa - o problema é quando a própria prefeitura é quem viola as regras ambientais, e há diversos precedentes disso, tanto na Zona Oeste (bairro Augusta) quanto na Zona Sul (bairro Caximba). No futuro, escreverei mais sobre essa lamentável incoerência, inclusive com as imagens que valem mais que mil mentiras oficiais. 

Na outra foto, continuamos na Zona Leste, ali perto, mas cruzamos o Rio Iguaçu (que aparece na 1ª foto) e entramos no município de São José dos Pinhais. É a região do Aeroporto Afonso Pena.

Ainda hoje lhes envio mais mapas e fotos.



Paz a todos.
Deus proverá”

São José dos Pinhais - Zona Leste - RM


Uberaba - Zona Leste





3 comentários:

  1. Anônimo22/11/12

    O importante não é o ano e sim, "quando o terreno já tem o seu dono com documentação como prova, e briga com a caixa econômica pelo terreno e mesmo assim a área é invadida!"
    Pra tirar a dúvida é só ler o processo 0115303-1 ou escrever o nome do meu tri-avô: ANTÔNIO JOAQUIM DE PAULA CORDEIRO e já saberão do que estou falando.

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  2. Anônimo23/1/13

    Se quiserem saber: "Porque invasão de terrenos seria considerado como um ato criminoso", é só escrever o nome da terceira geração de avô que tenho: ANTÔNIO JOAQUIM DE PAULA CORDEIRO, pois ao chegar ao BRASIL vindo de PORTUGAL, ele comprou um terreno de 50 alqueires de medida ou 11 quadras de norte à sul, como de leste à oeste
    + ou -, aqui em Curitiba/pr

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  3. olá, li suas materias sobre as invasões em curitiba.
    meu nome é Raphaela, estou produzindo um documentário sobre a invasão do caximba, agora com o nome 28 de outubro, gostaríamos muito de conversas com você, até mesmo para dar uma entrevista ... por favor responda ...
    meu email é raphaelavieiradasilva@gmail.com .

    aguardo ctto ...

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