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20 de out de 2011

Uma grande série sobre Curitiba 40


Feliz aniversário, Território Nacional

Por: Coré-Etuba M. da Luz
[20/10/11]

Bom dia.

Em maio, escrevi-lhes sobre a invasão que havia ocorrido no bairro da Caximba, no extremo sul da Zona Sul. Foi em outubro do ano passado, mas pouco divulgado pela mídia, até por ser um local bem distante, tanto do Centro quanto de qualquer via de grande circulação. Por isso mesmo havia se mantido, ao contrário das ocupações de Piraquara (no mesmo período), Cidade Industrial e Colombo (2008) e Campo Comprido (2007). Se tornando assim a única invasão que conseguiu vingar no município de Curitiba de abril de 2007 até hoje.

Território Nacional - Curitiba
Já sabem de tudo isso. No texto anterior disse que então iria a cada 2 meses, pra acompanhar o desfecho. Foi o que fiz. Nesses últimos 5 meses, desde que soube de sua existência – infelizmente através de uma matança que ocorreu por lá – já a visitei 4 vezes, ou seja, uma média até maior do que eu havia me proposto.

E agora lhes relato o que vi.

1) a vila, batizada “Território Nacional Brasileiro” - mas que na Tribuna é chamada de 1º de Setembro, o que está errado, esta é uma invasão vizinha, mais antiga – continua lá. Continua sendo a única invasão que permaneceu desde abril de 2007 no município de Curitiba. Nesse caso não incluo a Região Metropolitana, onde ocorreram ocupações irregulares nesse período.
2) ela continua extremamente violenta. Durante uns 15 anos, eu li diariamente a Tribuna. Ultimamente não tenho mais feito isso, agora é uma vez na semana, mais ou menos. Ainda assim tenho visto muitos relatos de assassinatos no Território Nacional. Num caso um rapaz foi assassinado e teve a cabeça decepada, que foi encontrada numa caixa. Dois meses depois, mataram seu pai, que igualmente teve uma parte de seu corpo amputada. Nem vou dizer qual, mas podem acreditar em mim que o ato foi de uma crueldade e selvageria extrema. Se está imaginando que foi 'aquela' parte, infelizmente foi isso mesmo, e pra humilhar de forma irracional o que já estava morto colocaram o órgão amputado em sua boca.


O Território Nacional está uma favela agreste e sem qualquer intervenção do estado, inclusive e principalmente em termos de segurança pública. Bem, essa é a saga da favela. Evidentemente que a grande maioria dos que moram lá são trabalhadores, pessoas honestas que dão duro, mas invasões novas, todas elas sem exceção, em suas fases de consolidação sempre acabam atraindo marginais de diversas partes da cidade, que usam a precariedade pra ocultarem sua perfídia.

Não é por serem carentes que são maus, é o contrário, por serem perversos é que buscam regiões onde é mais fácil se esconder.

A imensa maioria das pessoas desfavorecidas economicamente são honestas e tem o coração puro, arrisco a dizer que numa proporção maior que na elite e na alta burguesia, digo de novo e quantas vezes se fizerem necessário. Conheço bem os 'dois lados da ponte' e sei bem o que estou dizendo.

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Enfim, voltando nossa análise apenas a essa favela, o fato é

3) a invasão está crescendo muito menos. Entra numa fase de estabilização. Completa seu primeiro aniversário, e é por isso que estou lhes fazendo esse relato. Até maio, quando soube que ela existia, inchou num ritmo frenético. A foto que envio é da época da ocupação, outubro de 2010. Observem que então haviam poucas casas, bem afastadas umas das outras.

Em minha primeira visita ela já era muito maior, e o afluxo maciço de pessoas se manteve por mais 3 meses, até agosto ainda venha crescendo muito aceleradamente, cada vez que eu ia lá estava bem maior, novas áreas haviam sido tomadas por casas. Se tornou assim um bairro tão denso quanto qualquer outro de periferia. Agora que o local está indistinguível das muitas invasões e loteamentos populares que o cercam, a coisa amainou muito. Está praticamente do mesmo tamanho de 2 meses atrás, o que mostra que chegou a um momento de frear a expansão pra se consolidar como local de moradia dos que já estão por lá.


Natural, tudo no Universo é energia, e energia sempre se manifesta da mesma forma cíclica: se expande, depois se concentra, pra tornar a se expandir num ciclo mais avançado.

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Enfim, um ano se passou, e a favela não foi retirada. E ali não poderá permanecer. Há uma pequena porção mais alta que poderá ser regularizada onde está, assim como toda a vizinha 1º de Setembro um dia será inserida no mapa oficial sem a necessidade de grandes remoções.

Mas 90% do Território Nacional está na várzea do Rio Barigüi, e terá que ser retirada. O chão é um grande lodo, e afunda quando se pisa nele. Os moradores estão despejando uma grande quantidade de pedras pra amenizar esse problema, mas esse aterro não mudará o fato que ali não pode ser ocupado. Mesmo que a rua se torne firme, ainda é várzea do Barigüi. De forma que quando chove, o Rio se expande pra esse espaço que é dele, os homens e mulheres é que estão no lugar errado. Por isso mesmo as casas estão sobre estacadas, palafitas no barro.

Disse em emeio anterior que Recife-PE é a “Cidade da Lama e do Caos”, e de fato o é. Bem, o Território Nacional, visto sob essa ótica, é um pedaço recifense no coração do sul do Brasil. Outro apelido da capital de Pernambuco é a “Veneza Americana”. Na invasão da Caximba, quando chove forte, as casas também ficam ilhadas, é preciso barco pra atingir a terra firme no 'continente'.

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E tudo isso entra em seu segundo ano de vida. Escrevi em maio que se o poder público quisesse simplesmente desapropriar a área, sem realocar os moradores, precisaria agir rápido – como esclareci na época, não estava defendendo essa posição, nem seu oposto, apenas constatando um fato. Bem, o poder público não agiu.Agora, quando for desocupar as margens do Rio, terá que transferir as famílias pra outra parte, pois o bairro está consolidado. As ruas estão abertas e numeradas, os comércios estão funcionando. A parte de uma pequena minoria de marginais, a imensa maioria de pessoas honestas tenta levar a vida pra frente, em meio a incontáveis dificuldades de todos os tipos.

Então tem um certo 'direito adquirido'. A prefeitura não pode mais simplesmente chegar lá, passar o trator por cima e falar 'desapareçam'. Sim, deve tirá-los dali, até por ser insalubre a área. Mas agora, depois que a Terra já fez um giro completo sobre o Sol, a vila deve ser vista como qualquer outra favela a ser urbanizada, onde os moradores não podem ser sumariamente expulsos, precisam ser relocados.

…...............

A Saga da Favela continua, sempre lutando, contra tudo e contra todos.


Feliz aniversário, Território Nacional.


Enquanto você existir, sempre estarei junto a ti.


Pois eu moro na favela e a favela mora em mim.


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Eis meu relato, “direto da Zona Vermelha da Cidade”.

Paz a toda humanidade.
“Deus proverá”
Pátria Amada - Brasil

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