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5 de nov de 2014

Aos madrugueiros (Rui Barbosa)

*André Luiz Aguiar


"Eu amo os que me amam,
 e os que de madrugada me buscam
me acharão"

Provérbios 8:17



Apresento um excerto do livro Oração aos moços de Rui Barbosa, com 71 anos e a três de sua morte.

Trata-se de um discurso por ele redigido, mas que, devido a sua saúde, não pode apresentar pessoalmente, em 1921, para a turma de 1920 da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, São Paulo.



"Estudante sou. Nada mais. Mau sabedor, fraco jurista, mesquinho advogado, pouco mais sei do que saber estudar, saber como se estuda, e saber que tenho estudado. Nem isso mesmo sei se saberei bem. Mas, do que tenho logrado saber, o melhor devo às manhãs e madrugadas.
Muitas lendas se têm inventado, por aí, sôbre excessos da minha vida laboriosa. Deram, nos meus progressos intelectuais, larga parte ao uso em abuso do café e ao estímulo habitual dos pés mergulhados n'água fria. Contos de imaginadores. Refratário sou ao café. Nunca recorri a êle como a estimulante cerebral. Nem uma só vez na minha vida busquei num pedilúvio o espantalho do sono.
Ao que devo, sim, o mais dos frutos do meu trabalho, a relativa exabundância de sua fertilidade, a parte produtiva e durável da sua sagra, é às minhas madrugadas.
Menino ainda, assim que entrei ao colégio, alvidrei eu mesmo a conveniência dêsse costume, e daí avante o observei, sem cessar, tôda a vida. 
Eduquei nele o meu cérebro, a ponto de espertar exatamente à hora, que comigo mesmo assentava, ao dormir. Sucedia, muito amiúde, encetar eu a minha solitária banca de estudo à uma ou às duas da antemanhã. Muitas vêzes me mandava meu pai volver ao leito; e eu fazia apenas que lhe obedecia, tornando, logo após, àquelas amadas lucubrações, as de que me lembro com saudade mais deleitosa e entranhável.

Tenho, ainda hoje, convicção de que nessa observância persistente está o segrêdo feliz, não só das minhas primeiras vitórias no trabalho, mas de quantas vantagens alcancei jamais levar aos meus concorrentes, em todo o andar dos anos, até à velhice.
Muito há que já não subtraio tanto às horas a cama, para acrescentar às do estudo. Mas o sistema ainda perdura, bem largamente cerceado nas antigas imoderações.
Até agora, nunca o sol deu comigo deitado, e, ainda hoje, um dos meus raros e modestos desvanecimentos é o de ser grande madrugador, madrugador impenitente.

Mas, senhores, os que madrugam no ler, convém madrugarem também no pensar.
Vulgar é o ler, raro o refletir.
O saber não está na ciência alheia, que se absorve, mas principalmente, nas idéias próprias, que se geram dos conhecimentos absorvidos, mediante a transmutação, por que passam, no espírito que os assimila.
Um sabedor não é armário de sabedoria armazenada, mas transformador reflexivo de aquisições digeridas."


*André Luiz Aguiar/Advogado
madrugueiro, notívago,
notíativo,vigilante,
mero e eterno estudante
com intentos pensantes 
OAB-PR 60.581


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