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14 de set. de 2011

Uma grande série sobre Curitiba 9

Curitiba cresce para o Sul
Por: Coré-Etuba M. da Luz


Boa tarde.


Esse email visa complementar o anterior.


Lhes falei do que ocorreu em Curitiba, onde Marcelo Almeida promoveu uma invasão pra tentar se eleger vereador mas teve seu intento frustrado nas urnas. Ele realmente não é querido pelo povo, pois já havia perdido a eleição pra deputado em 2006, malgrado ter lançado mão das técnicas mais desonestas possíveis. Beti Pavin, outra que não é exemplo quando o assunto é ética, tentou o mesmo artifício em Colombo. Tudo isso já havia sido citado.

Esqueci porém de mencionar que no município vizinho a tentativa de se eleger criando novas favelas na cidade também foi derrotada pela vontade popular. Beti era candidata a prefeita. Ela, que já havia governado Colombo anteriormente, foi preterida nas urnas por seu concorrente J. Camargo. Como ocorreu na CIC, talvez se ela tivesse ganho a enorme ocupação irregular que ela promoveu no bairro Roça Grande, às margens do Contorno Norte, talvez tivesse permanecido - há boas razões pra se pensar assim.

Não foi o caso, porém. O vento que sopra cá também sopra lá.
......
Vamos ao mapa e as fotos.
O mapa mostra que tipo de revestimento tinham as ruas do município de Curitiba em 2005, se é que havia alguma!
90% das ruas estão no primeiro caso, enquanto 10% ainda são de terra – chamada pela prefeitura de 'saibro'.
Vamos simplificar aquela confusa legenda, falando dos tipos mais comuns:


Vermelho: asfalto.
Onipresente na região central, na periferia só era encontrado nas avenidas principais. Algumas poucas vilas tinham o privilégio de serem todas asfaltadas. Exemplos são a Vila Nossa Senhora da Luz (Cidade Industrial – Zona Sul), Conjunto Mercúrio e Vila Oficinas (ambos no Cajuru, Zona Leste), Colina Verde (Bairro Alto, Zona Leste), Conjunto Solar e Vila Esperança (Bacacheri e Atuba, respectivamente, os dois na Zona Norte). Note que o mapa retrata o que ocorria em 2005. De lá pra cá a situação se modificou muito.
A prefeitura agora não usa mais anti-pó, que provou ser 'o barato que sai caro'. Então, as novas ruas quando recebem pavimentação é direto com asfalto. O Bairro Novo (Sítio Cercado, Zona Sul) que cinco anos atrás só tinha asfalto nas suas duas vias principais (ruas Tijucas do Sul e são José dos Pinhais) agora está asfaltado em sua maior parte, e com asfalto de verdade.


Amarelo: anti-pó. 

Onipresente na periferia, 5 anos atrás e ainda hoje. Foi um dos maiores erros de nossa cidade. Nas décadas de 70 e 80, cobriu-se todo o subúrbio com esse pavimento. Os gênios da prefeitura julgaram ter achado a solução ideal, barata e que acabaria com as ruas de terra. A questão é que algumas décadas atrás, poucas pessoas nos bairros mais afastados tinham carros, e as famílias que possuíam esse que na época era um verdadeiro luxo pras classes trabalhadoras se limitavam a um veículo por residência. Com o desenrolar da história, hoje até os que moram em favelas tem transporte próprio, como é sabido. Os bairros de classe média baixa então contam com 2 ou mesmo 3 automóveis por família. Assim, o anti-pó, que foi feito pra suportar apenas tráfego leve, se esmigalhou, deixando as ruas que possuem esse 'benefício' mais esburacadas do que se fossem de terra.
Sei bem do que estou falando pois moro no Boqueirão, na Zona Sul como o endereço de email pelo qual lhes envio esse texto indica. Meu bairro e o vizinho Uberaba (já na Zona Leste) estão em estado verdadeiramente calamitoso, situação que se repete em boa parte da cidade. O anti-pó é o 'novo saibro', e será preciso asfaltar tudo de novo.
Todo o esforço das décadas de 70 e 80 foi jogado no lixo.
A prefeitura vem asfaltando algumas ruas, mas o trabalho vai ser longo. O que eles julgaram ser a solução na verdade era o problema. É claro que a prefeitura não podia prever o futuro, e não a culpo por isso. Mas que esse erro reflete a arrogância tão curitibana de julgar que as soluções criadas aqui são absolutamente geniais, isso reflete.


Verde: terra.
Na época, os três maiores bolsões sem pavimento eram na Zona Sul. À esquerda do mapa, abaixo está o Rio Bonito, no bairro Campo de Santana. É o grande loteamento que o Ippuc ignorou na projeção da população em 2007. Logo acima dele vem a metade ocidental do Tatuquara, citada no email anterior. De amarelo, com anti-pó, é o Jardim da Ordem, mais antigo. Suas expansões (mandei uma foto de uma delas no 1º email da série) na época ainda estavam com suas ruas sem qualquer pavimento. Algumas vilas da região que poderia citar são: Santa Rita, Santa Cecília, Jardim Ludovica, Jardim Paraná, Monteiro Lobato e Vila Evangélica.


Mais à direita há uma grande área com as ruas em verde. É o já citado Bairro Novo. As 3 regiões hoje estão asfaltadas em sua maior parte, e a prefeitura vem desenvolvendo um trabalho intenso pra pavimentar logo o que falta, até porque essa região, por ser muito povoada, é o 'curral eleitoral' mais disputado de nosso estado.
Não se esqueçam que a Zona Sul tem 37% da população de Curitiba, sendo os outros 63% dividido pelas zonas Oeste, Norte, Central e Leste. E essa situação só tende a se acirrar, no censo de 2020 certamente a Zona Sul abrigará 45% da população da cidade ou mais, pois todos os bairros que crescem em larga escala estão na ponta meridional do município. Já se pode dizer sem medo de errar que hoje é a Zona Sul é quem decide as eleições municipais.


Quando o pleito é estadual, como agora, esse peso se dilui, mas ainda é considerável. 13 bairros de Curitiba têm mais do 40 mil habitantes. 9 ficam na Zona Sul, sendo 7 na sua periferia. A Cidade Industrial tem a maior parte de seu território na Zona Oeste, conforme já falamos, e o Portão é na Zona Sul mas ainda próximo a Zona Central, sendo majoritariamente de classe média. Porém, 7 ficam no subúrbio, e embora todos eles tenham minorias razoáveis de classe média, a maioria é mesmo de classes mais humildes. Os 7 têm hoje 50 mil habitantes ou mais. São eles Pinheirinho, Xaxim, Novo Mundo (o único que talvez ainda não atinja 50 mil mas está muito próximo), Boqueirão, Sítio Cercado, Tatuquara e Campo de Santana. Dos outros 4 bairros que figuram entre os 13 maiores, um é a Água Verde (Zona Central), e os outros estão na Zona Leste: Cajuru, Uberaba e Bairro Alto. Vale observar que dos 13 maiores bairros, 12 estão sul do Centro, embora 1 esteja na Zona Central, 1 (parcialmente) na Zona Oeste e 2 na Zona Leste.

Só há um bairro entre os que têm mais de 40 mil pessoas a norte do Centro, o que é muito significativo. E ele está na Zona Leste. Dos 13 maiores bairros da cidade, nenhum está na Zona Norte, o que é igualmente significativo.

Curitiba cresce pra sul.

E isso só tende a se ampliar. Ia fazer apenas um pequeno comentário sobre o mapa da pavimentação e acabei escrevendo bem mais do que imaginava. Mas é fato. A Zona Sul curitibana está caminhando pra se tornar a Zona Norte carioca. Afastada do núcleo econômico e cultural da cidade, mas sede do núcleo populacional. E é por isso que a prefeitura asfaltou nesses últimos 5 anos a maior parte da áreas que estavam em verde nesse mapa, escrevi tudo isso pra chegar nesse ponto.

O que era pra ser uma nota de rodapé se tornou o núcleo do texto. Não há problema, o importante é as informações circularem. Vamos agora encerrar a análise do mapa.

Marrom: terra em ocupação irregular.As manchas se concentravam nas Zonas Leste (Cajuru e Uberaba) e Oeste (Cidade Industrial).

Azul claro: paralelepípedos.Em 2005 eram poucas calçadas dessa forma e hoje são ainda menos, pois asfalto está sendo posto por cima das pedras.
.....
Por fim, as fotos.

Portão- Zona Sul
A primeira mostra o bairro do Portão (Zona Sul). A foto é de 2000. No primeiro plano estão o terminal e o museu, na época ainda ativo, note que os tapumes que 'decoram' sua entrada hoje estão ausentes na imagem. No passado, houve ali até um cinema da Fundação Cultural, que infelizmente teve o mesmo destino de alguns de seus irmãos da Zona Central: fechou as portas. A seguir vê-se a Avenida República Argentina. Atualmente, há bem mais prédios, pois essa década foi de verticalização intensa por ali. Não por acaso o Portão passou de 40 mil habitantes no Censo que foi realizado no ano dessa foto para cerca de 55 mil hoje, um dos maiores crescimentos da cidade, digno do Extremo Sul: é o mesmo aumento verificado no Tatuquara e Sítio Cercado, por exemplo.

Na segunda fotografia vemos dois bairros da Zona Central, o Centro no primeiro plano e a seguir o Batel. Os prédios que aparecem na frente (como por exemplo um com teto triangular que conta com um relógio adornando-o, e que está na Rua Carlos de Carvalho) pertencem ao Centro, onde pode-se fazer prédios com altura ilimitada. Nos demais bairros, porém, essa condição só se aplica ao que no zoneamento é definido por 'zona estrutural', entre as vias rápidas, tendo a avenida do ônibus expresso como espinha dorsal.


Na foto se vê isso com clareza.
No Centro, os prédios altos se espalham pra todos os lados. Mas depois que se sai de seu território (no caso aqui, cruzando a Rua Desembargador Motta), a altura das torres cai bruscamente, pois nos bairros o limite é de 12 andares – ou menos, há locais em que só se pode fazer construções com 10, 8 ou 4 andares, e há bairros em que não se pode verticalizar de modo algum. Enfim, nas quadras que cercam a avenida do expresso não há limites, como já foi dito. No caso, essa avenida é a Sete de Setembro, então a área que é liberada pra prédios com 20, 30 ou mais andares é o trecho entre as avenidas Visconde de Guarapuava e Silva Jardim. Por isso a fileira de edifícios altos (que corta o meio da foto) é estreita.

Essa situação se repete nas outras partes de Curitiba. É por isso que na foto do Portão se vê que os edifícios mais altos cercam a via do expresso pelos dois lado, com a Av. República Argentina formando uma espécie de 'grand canyon'. Mas além dessa espinha dorsal as construções são bem mais baixas.
Centro e Batel - Zona Central
....
Por hoje acho que é suficiente. Em algum ponto no decorrer dessa semana retomamos a série.


Paz a todos.
“Deus proverá”

Uma grande série sobre Curitiba 8

Se tem eleição, tem invasão!
Por: Coré-Etuba M. da Luz


Bom dia a todos.

2010 é ano eleitoral, e a medida que o pleito se aproxima, eu fico pensando aonde será a área que será invadida em Curitiba nesse ciclo eleitoral? Digo isso porque conforme eu indiquei no título:



Sempre há grandes invasões de terras em nossa cidade às vésperas de votações.

É uma tradição que já remonta no mínimo 14 anos, ou sete eleições. Eu disse no mínimo, talvez seja mais antiga, mas 1996 é o máximo que minha memória consegue voltar no tempo e afirmar com certeza.
Na última eleição, em 2008, isso ficou nítido a todos, pois houve uma grande invasão na Cidade Industrial (Zona Oeste), que foi muito noticiada na mídia, onde alias saiu erroneamente como Fazendinha ou Campo Comprido. Esses idiotas que trabalham na imprensa conseguiram dar duas versões, e ambas erradas.
O terreno invadido fica na Rua João Dembinski, que é por onde passa o Interbairros 4.
A Rua João Dembinski começa e termina na Cidade Industrial, onde tem 100% de seu território. Fiz esse apêndice pra falar dos bairros porque é importante, escreverei mais em breve sobre os débeis mentais que tentam negar a existência da CIC, 40 anos depois dela ter sido criada, colocando suas vilas no Campo Comprido, Fazendinha e Capão Raso.


Estabelecida sua localização correta, voltemos a falar da invasão em si. Nesse caso específico, o mentor da ação foi o próprio dono do terreno invadido, Marcelo Almeida, filho do já desencarnado Cecílio do Rego Almeida, o fundador da construtura CR Almeida, que abocanhou bilhões dos cofres públicos de nosso estado por meios nem sempre lícitos. Embora o patriarca CR Almeida preferisse a companhia do diabo do que a de Requião, o filho tinha o 'coração mais puro', ou então era mais pragmático, tinha sede de poder pra mostrar que também era alguém sem a fortuna do pai. O fato é que Marcelo Almeida se aliou ao arqui-inimigo de seu pai e foi nomeado por Requião diretor do Detran – há muita podridão em tudo isso, [...]


O fato é que quem é desonesto é sempre desonesto, e Marcelo Almeida foi o mandante da invasão de seu próprio terreno, na CIC, nas vésperas da eleição de 2008. É uma área muito grande, cerca de metade do tamanho do bairro Alto da Glória, por exemplo, e que consolidada seria moradia pra 10 mil pessoas, se a invasão não tivesse sido desmantelada. Marcelo Almeida era candidato a vereador e assentou de forma irregular mais de mil famílias em sua propriedade, fazendo campanha maciça ali, prometendo a permanência caso fosse eleito. Não foi, e poucos dias depois da votação, a polícia expulsou os invasores.
É de minha opinião pessoal que de fato ele 'mexeria os pauzinhos' com Requião (que em última análise era quem autorizava ou vetava a ação de reintegração de posse pela PM enquanto era governador) e a invasão de fato teria permanecido se ele tivesse sido eleito. O mesmo artifício foi tentado por outra aliada de Requião, Bete Pavin, em Colombo (Zona Norte – RM), também sem sucesso. Falarei mais sobre isso depois, mas vão dando uma olhada com quem estamos lidando.


http://www.fabiocampana.com.br/2008/08/fabio-camargo-e-beti-pavin-os-politicos-que-mais-enriqueceram/

Sobre esse Fábio Camargo eu prefiro nem comentar, tamanha é a podridão desse 'cidadão'. Vamos nos ater às ocupações irregulares de lotes. Mesmo tendo perdido a eleição e então mandado a polícia 'limpar' seu terreno, Marcelo Almeida saiu ganhando com a invasão, pois ele já havia sido multado pela secretaria de meio ambiente por fazer desmatamento ilegal no local. Quando houve a invasão, os ocupantes derrubaram eles mesmos as árvores que 'incomodavam' o proprietário, fazendo o serviço sujo por ele sem que esse fato possa ser comprovado na justiça.


Tudo somado, a verdade é que essa foi uma invasão muito grande, que atraiu muita atenção da mídia, até pelo comércio descarado e aberto de lotes que estava ocorrendo, ficando nítido que se havia alguns sem-teto também haviam centenas de oportunistas lucrando, e, somando-se tudo isso a derrocada de Marcelo Almeida, tornou-se inviável a criação de mais essa vila em Curitiba – pelo menos por hora, já houve precedentes de terrenos que haviam sido invadidos em um ciclo eleitoral, foram desocupados mas a seguir re-invadidos em eleições posteriores.

É sobre isso que falarei agora, o modus operanditipicamente curitibano de se fazer ocupações irregulares de terras às vésperas da eleição, se aproveitando do fato que nenhum governador ordenará retiradas compulsórias antes da votação, pois podem ocorrer tumultos que repercutirão mal nas cabines eleitorais.


Enfim, 2 anos atrás, ficou nítido a todos que há políticos que promovem invasões com fins eleitoreiros. Mas nem tão divulgado foi o fato de essa tradição é antiga. Todos os casos ocorreram no segundo semestre, uns meses antes da votação, pra garantir que a invasão se assente (ou seja, construam-se casas, que são mais difíceis de retirar do que barracos de lona) no período de 'imunidade'. Vou falar pra vocês apenas os casos que eu lembro, com certeza ocorreram outros. 


Vamos recapitular:


1996 (pleito municipal): invasão de um terreno no Uberaba (Zona Leste) às margens da BR-277, a Rodovia das Praias. Essa invasão se manteve, e o local já foi regularizado e urbanizado pela prefeitura.


1998 (pleito federal e estadual): complementação da ocupação de dois anos antes. Dessa vez, ocorre a maior invasão da história da cidade, quando cerca de 10 mil pessoas ocupam uma extensa área na divisa leste do município, da BR-277 até a Avenida das Torres. Diversas vilas do Uberaba surgiram nessa oportunidade, como Iasmin (já retirada), Ilha do Mel (já retirada), Alvorada, Audi, União, Ferroviária, Reno, Solitude 2, Icaraí, entre outras. A prefeitura já fez diversas intervenções na área, e o enorme trabalho de integrar essa grande favela a cidade está quase concluído. Uma parte dos moradores foi transferida pro Uberaba mesmo (no próprio local, pra um loteamento chamado Jardim Iraí, ou então na beira do Rio Belém, no Jardim Primavera, perto de minha casa), e uma parte pro Sítio Cercado (Zona Sul), nos conjuntos Sambaqui e Novo Horizonte (popularmente conhecidos por 'Cidade de Deus' – falarei sobre a região em outra oportunidade). A invasão se manteve, e está sendo regularizada, apenas pequenos trechos foram retirados. Como disse, as remoções e urbanização estão no estágio final, que deve ser concluída ainda antes da eleição. Não deixa de ser irônico, que uma eleição cria e outra ajuda a acabar com uma favela.


1999: Não é ano eleitoral, mas é quando ocorre a invasão da Terra Santa, Tatuquara, Zona Sul. A citei aqui porque suas expansões se darão em anos de eleição.

2000 (pleito municipal): Surge a primeira etapa de ampliação da Terra Santa. A invasão é retirada.



2002 (pleito federal e estadual): Segunda expansão da Terra Santa. Essa permaneceu, se chama “Cantinho do Céu”, e está sendo urbanizada. Em outro ponto da Zona Sul, na Rua Pedro Gusso, Novo Mundo (divisa com o Capão Raso), duas invasões vizinhas também surgem às vésperas da eleição, nos terrenos das falidas construtoras Brejatuba e Cidadela. Pra quem vai em direção a CIC, é a direita, antes do posto de saúde Vila Feliz. Uma das invasões foi retirada, e foi construído um conjunto de prédios verdes no local - essa aliás era a destinação inicial do terreno, abrigar prédios. A outra permaneceu, e ainda não está sendo regularizada pela prefeitura. Veio se somar a um conjunto de favelas que já existia no Novo Mundo, na Vila Formosa. Não sei o nome da vila até hoje, e me refiro a ela por 'Cidadela', embora não tenha certeza se ela está no terreno que pertenceu a essa construtora ou a outra.

2004 (pleito municipal): Nova ampliação da Terra Santa, naquele mesmo terreno que já havia sido invadido em 2000. Eu estava trabalhando pelo Ibope ali perto, no Jardim da Ordem, e presenciei a invasão crescendo, pois ela durou vários dias. A cada dia que íamos lá podíamos ver mais mais barracos de lona preta ocupando o morro, pois o núcleo foi próximo a linha do trem e veio descendo em direção ao rio. Dessa vez a invasão não foi retirada, e ganhou o nome de Bela Vista. Há outras Belas Vistas em Curitiba, então cuidado pra não confundir quando ler no jornal.

Essa invasão uniu as metades oriental (Vila Pompéia) e ocidental (Jardim da Ordem) do Tatuquara, que até então eram separadas por uma área verde – posta abaixo pra dar lugar as casas. Ficou 3 anos sem receber rede de luz, e era impressionante passar por lá e ver aquele emaranhado de fiações clandestinas, que causaram muitas mortes por eletrocução, pois os fios caiam e eram descascados, então em dia de chuva podia ser fatal pisar em poças d'água. Em 2007 apenas a Copel resolveu instalar os potes oficiais, e agora em 2010 (por causa da eleição) a prefeitura anunciou que a área será regularizada e urbanizada. A Bela Vista se uniu a favela Beira-Rio, que também está sendo urbanizada.

2006 (pleito federal e estadual): Não houve invasões às vésperas da eleição. Achei estranho, pois quebrou uma tradição de então 10 anos. Mas eu não estava enganado. Os políticos que promovem invasões (são vários, mas entre eles certamente está o ex-governador Requião) estavam apenas aprimorando suas técnicas, e planejando melhor sua ação. E ela veio, em março de 2007. Foi o chamado 'março vermelho', e não sem razão, pois foram 4 invasões simultâneas na Zona Oeste. Uma, no Campo Comprido, foi retirada. Não é a mesma da que ocorreu no ano seguinte, sobre a qual falei na abertura do texto. Essa de 2007 era de fato no Campo Comprido. Não perdurou.
Mas bem próximo dali haviam ocorrido outras três invasões, que são vizinhas e formaram uma só. Duas foram no bairro de Santa Quitéria, e uma no bairro do Portão. A diferença de bairro é porque uma está de um lado da Rua Rezala Simão (ao lado da linha de alta tensão) e outra do outro, sendo frente a frente, mas cada uma em um bairro. Seja como for, as 3 são vizinhas e se configuram como a mesma coisa. Pelo menos parte da invasão também se seu em terrenos de propriedade da falida construtura Cidadela, situação que alias se repete muito pela cidade, pois os terrenos estão em um vácuo jurídico de massa falida, o que dificulta ações de reintegrações de posse. O local é chamado de Portelinha, em homenagem a uma novela da Globo em que Antônio Fagundes vive um líder sem-teto que organiza uma ocupação com esse nome. Também veio unir seu território com invasões mais antigas que existiam no local.

2008 (pleito municipal): houve duas grandes invasões promovidas por Requião e seus aliados, das quais já falamos. Além daquela na Cidade Industrial, na região da Vila Sandra, houve uma outra em Colombo, no bairro Roça Grande, às margens do Contorno Norte. As duas, se tivessem permanecido, seriam expansões de ocupações irregulares vizinhas mais antigas, mas não foi o caso. Baixada a poeira das campanhas eleitorais, e conhecidos os vencedores nas urnas, a PM desocupou as duas áreas, com 3 dias de diferença.

2010: Façam suas apostas. Aonde as lonas pretas atacarão dessa vez? Ou enfim chegará ao fim essa tradição tão curitibana quanto o leite quente? Se for esse o caso, teremos que esperar até abril pra saber, pois já há precedentes das mesmas pessoas que sempre estão por trás das ocupações terem esperado até março do ano seguinte pra agir.

Breve saberemos.
......

Vamos agora às fotos.
Uma mostra o bairro do Uberaba (Zona Leste) a partir da BR-277. É exatamente a área que foi ocupada em 1998. Essa foto é de 2002, e muita coisa se modificou nesses 8 anos. Aquele espaço vazio, em marrom, já foi ocupado. Foi exatamente pra ali que foram transferidas as famílias que moravam em palafitas no Jardim Iasmin, que está a esquerda do espaço retratado pela foto (e que foi cortada propositadamente da imagem, pois era uma favela miserável – em 2002 ela ainda existia). O local pra onde essas pessoas foram removidas se chama Jardim Iraí. Reparem que lá no fundo há alguns barracos sobre o mangue, no Jardim Icaraí. Ali se realizaram as 2 maiores chacinas de Curitiba. 8 pessoas foram mortas no Natal do ano passado, e 6 haviam sido assassinadas em um carnaval no início da década passada, em 2001 ou 2002, não estou bem certo. A região enfim está sendo urbanizada, e todos esperamos que esses lamentáveis episódios de violência não venham a se repetir.

Pra atender essa região, a prefeitura criou em 1999 a linha Vila Reno, que sai do Terminal Centenário. Ela já teve duas expansões, pois vai sendo ampliada a medida que o processo de urbanização avança. Quando foi criada, a linha apenas atravessava a BR-277 e por ali ficava. À medida que as vilas vão sendo integradas ao mapa oficial da cidade, a linha vai se alongando pra chegar nelas. Numa segunda etapa, ela alcançou a Vila União, e mais recentemente a Vila Audi. A próxima ampliação, quando o Icaraí for urbanizado (o que já está em andamento) será a última, e levará a linha até próximo a Avenida das Torres, enfim integrando a cidade essa enorme invasão de 12 anos atrás.

Outro detalhe: tudo o que está a leste a linha do trem nos bairros do Cajuru, Uberaba, Boqueirão e Alto Boqueirão faz parte tanto do Parque Nacional do Iguaçu quanto da Apa (Área de Proteção Ambiental) do Iguaçu, logo não deveria receber moradias - uma das invasões no Cajuru alias se chama "Parque Nacional", e é exatamente porque está numa área de parque nacional. Nos dois bairros da Zona Leste já não há mais o que fazer pra salvar a Apa e o parque. As invasões são muito grandes e estão consolidadas, se fosse pra remover teria-se que criar quase uma nova cidade pra acomodar tanta gente, então serão retirados apenas os que estiverem em áreas de risco e os demais serão regularizados onde estão. Breve falarei mais sobre isso. 

Na Zona Sul a situação não está tão degradada. No Boqueirão não há grandes invasões dentro do parque, apenas pequenas faixas paralelas a linha do trem, que são de fácil remoção. No Alto Boqueirão há a Vila Pantanal, que está sendo regularizada, mas a prefeitura promete agir com rigor pra evitar novas ocuapações no território da Apa - o problema é quando a própria prefeitura é quem viola as regras ambientais, e há diversos precedentes disso, tanto na Zona Oeste (bairro Augusta) quanto na Zona Sul (bairro Caximba). No futuro, escreverei mais sobre essa lamentável incoerência, inclusive com as imagens que valem mais que mil mentiras oficiais. 

Na outra foto, continuamos na Zona Leste, ali perto, mas cruzamos o Rio Iguaçu (que aparece na 1ª foto) e entramos no município de São José dos Pinhais. É a região do Aeroporto Afonso Pena.

Ainda hoje lhes envio mais mapas e fotos.



Paz a todos.
Deus proverá”

São José dos Pinhais - Zona Leste - RM


Uberaba - Zona Leste





Uma grande série sobre Curitiba 7

Mapa das regiões sem distorcer
Por: Coré-Etuba M. da Luz


Boa tarde a todos.



Nesse email também não escreverei nada. Mando apenas pra lhes re-enviar o mapa que pintei dividindo a cidade em regiões – ou em zonas, se preferirem. É a mesma coisa. Não há mal algum em falar “Região Oeste” ao invés de “Zona Oeste”. O problema apenas é quando se cria um tabu, proibindo-se a palavra 'zona', por fantasmas que só existem nas mentes doentias que criam esses tumultos.

Enfim, na primeira vez que enviei o mapa, houve um problema na parte da informática, e ele salvou errado, assim, na hora de aumentar, não dava pra ler nada. Espero que agora dê certo.


Aproveito pra divulgar também mais duas fotos.
Uma, a noturna, é o Largo Baden Powell, que homenageia o oficial do exército britânico Robert Stephenson Smyth Baden-Powell, fundador mundial do escotismo. Essa praça, que fica quase em frente a Rodoferroviária, está localizada no Rebouças (Zona Central), na divisa com o Centro e o Jardim Botânico – já lhes disse que a rodoviária e o Mercado Municipal estão no território do Jardim Botânico, embora isso seja quase ignorado por todos.

Largo Baden Powell (Rebouças) Zona Central









Enfim, a esquerda na foto, aquele prédio que se vê entre as árvores, que abriga um hotel, já está no Centro. Os postes de luz que você enxerga a frente estão no Jardim Botânico. No primeiro plano, observa-se o expresso bi-articulado 17D19 (Volvo-Marcopolo) da viação Expresso Azul, que se prepara pra cruzar a Zona Leste rumo ao terminal do Centenário, no bairro Cajuru.


Falando em Zona Leste, é de lá que trago a outra foto.
Trata-se da Vilinha, nas margens do Rio Atuba, na divisa com o município de Pinhais. Pouca gente sabe, mas foi ali que Curitiba de fato começou.
É claro que antes dos europeus por aqui chegarem a região já era habitada por índios. Porém, se formos focar apenas nas pessoas que vieram de outros continentes, essa é a primeira construção de Curitiba, era uma igreja. Depois é que o núcleo da cidade foi deslocado mais pra oeste.


Vilinha (Bairro Alto) Zona Leste
Ou seja, o Marco Zero de Curitiba é no Bairro Alto, e não na Praça Tiradentes.


É um local muito bonito, que já tive a oportunidade de visitar, e creio que fui um dos poucos a fazê-lo, já que muitos nem sabem que ele existe. Bem, se algum de vocês não sabia, agora já sabe.


Além dessa marca histórica, ressalto que o Bairro Alto está na Zona Leste, e não Norte, como é comumente referido erroneamente. Em outro email, vou explicar o porque dessa confusão.

Paz a todos.
“Deus proverá”



Mapa reformulado

 
Anexo aqui um vídeo que fala sobre a data de fundação de Curitiba.

13 de set. de 2011

Uma grande série sobre Curitiba 6

Barcos e Prostíbulos
 Por: Coré-Etuba M. da Luz

Boa tarde.

Continuemos a falar sobre os nomes dos bairros de Curitiba e RM.

O Bom Retiro, na Zona Norte, herdou a nomenclatura do hospital psiquiátrico Bom Retiro, que pertence a Federação Espírita do Paraná. Antigamente, ele era do lado oposto da rua, onde hoje há uma faculdade. Eu sempre havia pensado que o bairro é quem havia nomeado o hospital, mas um dia descobri que foi o contrário, o hospital já se chamava Bom Retiro enquanto o local não tinha nome – ou tinha outro que me é ignorado.

O Bigorrilho, na Zona Oeste, deve seu nome a um puteiro. Era de propriedade de uma cafetina e prostituta, chamada popularmente de 'bigorrilha'. Essa palavra é uma ofensa, quer dizer pessoa incômoda, e um puteiro é exatamente isso, algo incômodo, que movimenta energias baixas, pois é frequentado por mentes dementadas e perturbadas, e me refiro tanto as trabalhadoras do local quanto a seus clientes. Alguns podem discordar mas minha visão é essa. E os moradores da região no início do século 20 concordavam comigo, por isso apelidaram a rameira de 'bigorrilha'. As imediações de sua casa de luz vermelha eram conhecidas como a região da bigorrilha, e com o tempo masculinizaram a palavra, que felizmente para os moradores do bairro perdeu seu sentido ofensivo.

Mesmo assim, alguns insistem em chamar o bairro de Champagnat, denominação que não será reconhecida por mim até que se torne oficial. Já houve um projeto de mudar o nome do bairro, mas não passou na câmara, talvez porque ao invés de simplesmente propor a alteração de nome de Bigorrilho pra Champagnat eles ainda queriam redefinir os limites, pois pretendiam engolfar também uma área que pertence ao bairro das Mercês. Realmente boa parte do que é conhecido por Champagnat está além do Bigorrilho, a antiga sede da Tuiuti e a Praça 29 de Março, por exemplo, estão de fato nas Mercês, então pros que defendem a mudança pouco adiantaria apenas trocar o nome do Bigorrilho mas deixar de fora do Champagnat partes que lhe são caras.

Só que isso criou um complicador, que talvez tenha sido determinante pra derrocada da iniciativa. A prefeitura não se opõe que um bairro troque de nome, se for o desejo de seus moradores, tanto que o antigo Capanema se tornou Jardim Botânico em 1992. Mas ela (a prefeitura) veta qualquer iniciativa que vise re-desenhar os limites entre os bairros.

Outras cidades não têm problemas com isso. Recentemente, uma parte do bairro São Cristóvão, no Rio de Janeiro, foi desmembrada, passando a se chamar Vasco da Gama, pra homenagear o clube de futebol. Alegou-se que Flamengo e Botafogo já eram bairros. Só se esqueceu de mencionar que nesses dois casos foram os bairros que nomearam os clubes, e não o contrário. Enfim, o fato é que o projeto foi aprovado, e agora existe o bairro Vasco da Gama na Zona Norte do Rio. Em Porto Alegre, o bairro Mário Quintana foi desmembrado do bairro Protásio Alves pra homenagear o poeta gaúcho.

Ambos os bairros surgiram no mesmo ano, 1998, e foram desmembrados de seus originais. São Cristóvão e Protásio Alves ainda existem, embora menores. Foi o que tentaram fazer aqui,desmembrar uma parte do Bigorrilho e das Mercês. Mas o que é permitido em outras cidade é interdito aqui. Se a população estivesse de acordo, o Bigorrilho poderia virar Champagnat, mas esse é o limite. Não se pode alterar fronteiras de bairros e nem fundi-los, assim o Bigorrilho continua sendo uma homenagem a uma prostituta e não ao padre Marcelino Champagnat, como alguns gostariam.

Eu não defendo e nem me oponho a mudança, mas só a adotarei depois de oficial, como já falei. Pelo mesmo motivo, “Ecoville” pra mim é ficção, e sempre será grafado entre aspas e com indicativo se estamos falando de fato do Mossunguê, Campo comprido ou Cidade Industrial.
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No caso da Boa Vista e Vista Alegre, nas Zonas Norte e Oeste, respectivamente, a origem é óbvia e é a mesma. Situados em lugares altos, os bairros ofereciam excelentes visões panorâmicas do Centro, vistas 'boas' e 'alegres', na opinião dos que ali estavam. Na Zona Central, a Água Verde se deve a um rio de mesmo nome, que nasce nas proximidades do estádio do Atlético e deságua no Rio Belém, na região da Vila Capanema, no Prado Velho, também Z/C.

Vizinho a Água Verde, vamos encontrar o bairro que tem a maior renda per capita de Curitiba, o Batel. A origem do nome desse caro bairro da Zona Central vem de palavra 'Bateau', barco em francês, daí o acidente com o Bateau Mouche, no Rio de Janeiro, no reveillon de 1989.
Voltando ao bairro da elite curitibana, segundo se diz, alguém estava indo a uma festa religiosa, e levava um barco em miniatura, que seria jogado em algum rio pra agradecer uma benção divina. Era uma réplica bem feita, inclusive trazia no casco um nome em francês, “Bateau alguma coisa”. Sabe-se lá o porque, após tanto esmero na confecção, o devoto deixou cair essa mini-embarcação na rua, onde ela ficou por uns dias. Os populares passaram então a chamar o local por 'região do Bateau'. É sabido por nós que 'bateau' se pronuncia batô, mas na época quem viu o barquinho na rua era desprovido desse conhecimento, falando a palavra como a lia. A seguir simplificou-se a grafia, mantendo-se então o nome do bairro como aportuguesação da palavra francesa que quer dizer 'barco'.
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O Batel, como é sabido, é o bairro que faz divisa com o Centro a oeste. Continuemos na Zona Central mas vamos cruzar todo o Centro rumo a ao bairro que o limita a leste, o Alto da XV. Seu antigo nome era Itupava. Ainda há algumas placas antigas, daquelas verdes que eram pregadas diretamente na parede das casas, que trazem esse nome, por isso creio que ele tenha perdurado até 1974. No duelo entre essas duas ruas paralelas, a XV de Novembro levou a melhor, e tirou da Itupava a primazia de nomear também o bairro.

Só pra encerrar a questão dos desmembramentos, a Cidade Industrial e o Centro Cívico foram caso de bairros que surgiram no território que já era ocupado por outros bairros. Mas foram frutos de políticas públicas oficiais, e não resultado da iniciativa de alguns de seus moradores. Como o nome indica, são bairros que cumprem funções bem específicas. Não sei a data em que eles foram criados.

Acho que o último desmembramento de Curitiba ocorreu em 1974, na última vez que houve alterações nos traçados dos bairros. O Capão da Imbuia se separou do Cajuru, virando um bairro a parte. Isso explica porque o ônibus Cajuru, que sai da praça Carlos Gomes, não passa pelo bairro do Cajuru. Escreverei mais sobre o Cajuru em particular e a Zona Leste em geral em um próximo email, onde direi porque o hospital do Cajuru está no bairro do Cristo Rei.

Por hoje podemos encerrar. Mando pra vocês alguns mapas bem interessantes. Vejam como progrediu as expansão das favelas entre 1978 e 2005.

Quanto as fotos, uma mostra a Praça Rui Barbosa, no Centro, e a outra o Parque Tanguá, no Pilarzinho, Zona Norte.

Parque Tanguá (Pilarzinho) Zona Norte
Praça Rui Barbosa (Centro)



Favelas 1978
 

Favelas 2005

Uma grande série sobre Curitiba 5

População 2000 e 2007
Por: Coré-Etuba M. da Luz


Boa tarde.


Nesse email, não escreverei nada. Apenas o envio pra lhes fornecer em anexo a tabela com a população de todos os bairros, no censo de 2000 e na projeção de 2007. É nesses números que baseio todas as minhas análises sobre a cidade. Há também a taxa de crescimento absoluta e proporcional de cada bairro. Depois vou lhes mandar diversos mapas mostrando o que esse dados representam. Como já lhes falei anteriormente, há um erro em relação ao bairro Campo de Santana, Zona Sul, que em 2007 tinha perto de 40 mil habitantes, e não 8 mil como está escrito.


Aproveito pra mandar mais 2 fotos.
Uma foi tirada no Jardim Botânico, no bairro de mesmo nome (Zona Leste), mas os prédios que aparecem ao fundo estão localizados no bairro do Cristo Rei.
A outra é uma lembrança de quando os ônibus metropolitanos em Curitiba tinham pintura livre. Cada empresa podia pintar seus veículos como achasse melhor, e podia inclusive escolher se o embarque seria pela frente ou por trás. Nos ônibus da Viação Colombo, que passavam perto do bairro em que fui criado, em Santa Cândida (Zona Norte), por exemplo, entrava-se pela traseira, isso muitos anos depois dos municipais de Curitiba terem adotado a padronização pela porta dianteira.


Essa situação perdurou até o início dos anos 90, quando Requião, em seu primeiro mandato como governador (1991-1994) padronizou a entrada pela frente e adotou também nos ônibus metropolitanos uma pintura que já era usada pelos municipais de Curitiba, ou seja, em apenas uma cor.


O veículo da foto, um Torino, pertenceu a Auto Viação São José dos Pinhais. No letreiro está escrito “L-36 São José dos Pinhais via Av. das Torres”. A linha continuou se chamando assim mesmo depois da padronização da pintura, que no caso da Viação São José adotou a cor vermelha. Mas já nos anos 2000, houve nova padronização, dessa vez no modo de nomear as linhas, e então essa é a atual “Ctba/São José”.



Eu presenciei a época em que os ônibus metropolitanos eram pintura livre. Era a alegria dos busólogos ir ao terminal Guadalupe (então ainda muito conhecido por “Rodoviária Velha”) e ficar observando a diversidade de cores existentes. Os mais novos já pegaram essa nova fase, em que tudo é igual. Não quero defender um lado ou outro, apenas relembrar pra quem viu e informar pra quem não viu como era o sistema anterior.

Paz a todos.
“Deus proverá”

Jardim Botânico-Cristo Rei Zona Leste




Ônibus São José dos Pinhais anos 80

Uma grande série sobre Curitiba 4

Morro do Querosene, quer dizer, Jardim Social
Por: Coré-Etuba M. da Luz


Boa tarde a todos.


Vamos falar um pouco das origens e fatos curiosos dos nomes dos bairros e municípios da cidade. Todos os bairros de Curitiba tiveram seus nomes e limites definidos em definitivo no ano de 1974. De lá pra cá a única mudança foi em 1992, quando o bairro Capanema (Zona Leste) mudou seu nome, após plebiscito popular, pra Jardim Botânico. Não houve alteração nos limites.


Dos antigos nomes que irei falar, alguns são recentes, duraram até 1974, quando uma lei estabeleceu a nomenclatura atual, como acabei de dizer. Outros, entanto, são bem antigos, remontam a época da colonização. Darei sempre as informações mais completas que eu possuir. Alias, quem souber qualquer curiosidade sobre o nome de locais de Curitiba (incluindo Região Metropolitana, que daqui por diante abreviarei por RM) pode me mandar que repassarei a todos.


Vamos lá então.
Conforme o título indica, o Jardim Social (Zona Leste), antes de ser urbanizado era chamado de Morro do Querosene. O Pinheirinho (Zona Sul) era conhecido por Capão dos Porcos.



O bairro da Santa Quitéria (Zona Oeste) quase se chamou Carmela Dutra, homenagem Carmela Teles Leite Dutra, esposa do presidente da república Eurico Gaspar Dutra. Optou-se pelo nome da santa, embora meio que se 'descobriu uma santa pra cobrir outra', já que a ex-primeira dama brasileira tinha o apelido de 'dona Santinha'. Enfim, 'Santa Quitéria' ao fim prevaleceu, e Carmela Dutra nomeou um conjunto do bairro e uma linha de ônibus, que originalmente acabava ali mas foi estendida, tendo o ponto final no vizinho bairro do Campo Comprido (também na Z/O).

Timoneira é nome antigo do município de Almirante Tamandaré (Zona Norte – RM), e Tindiquera é a denominação anterior de Araucária (Zona Sul – RM). Esse último todos os que já foram fazer setores comigo e com o Osvaldo por lá sabem, uma vez que a empresa de ônibus municipal (do mesmo dono da Viação Araucária, intermunicipal) chama-se Tindiquera, como já comentei várias vezes.

Todos conhecem o fato que Piraquara é o município 'mãe' de Pinhais, mas o que a maioria talvez ignore é que São José dos Pinhais é que é a 'avó', e o nome da 'neta' Pinhais remonta a isso. É de domínio público que Pinhais se separou de Piraquara em 1992. Não tão notório é que Piraquara por sua vez já havia se separado de São José dos Pinhais, algumas décadas antes. Os 3 municípios pertencem a Zona Leste da Grande Curitiba.

Pra entender a genealogia de Pinhais, voltemos um pouco no tempo, até a primeira metade do século 20, quando as viagens entre a Capital e o Litoral eram feitas de trem, na ferrovia projetada pelos irmãos Rebouças, que falarei mais adiante. Pinhais pertencia a Piraquara, e ambos pertenciam a São José dos Pinhais. Havia uma estação de trem perto de onde hoje é o autódromo, chamada “Estação São José dos Pinhais”, que com o tempo passou a ser conhecida por “Estação Pinhais”. Quando Piraquara se separou de São José dos Pinhais, a região mais próxima da divisa com Curitiba se tornou o distrito de Pinhais, que por sua vez na década de 90 também se tornou independente.
Piraquara, alias, significa 'buraco do peixe', em tupi-guarani. Vamos decompor a palavra. 'Pira' significa peixe. Piracicaba (SP) é o 'lugar que o peixe pára', referência ao salto do rio, bem no Centro da cidade, um lugar muito bonito, alias, malgrado a poluição do Rio Piracicaba. 'Quara' é buraco.

Com isso, vocês deduzem que Tatuquara, na Zona Sul, é o 'buraco do tatu', ou talvez 'toca do tatu', numa tradução mais livre. O nome do animal em português foi importado do tupi sem modificações.

Continuando na Zona Sul, o bairro em que vivo, o Boqueirão, se deve uma grande propriedade rural chamada “Fazenda Boqueirão”. Perto do campo dos times de futebol suburbanos do Boqueirão e do Vila Hauer (são no mesmo local, e apesar de cada um levar o nome de um bairro, ambos estão localizados no Boqueirão, e não na Vila Hauer) existe uma creche da prefeitura chamada Fazenda Boqueirão.

Quanto a origem da palavra, boqueirão significa exatamente 'grande boca'. Esse termo passou a ser utilizado pra indicar um vale formado por um rio, praia ou canal.

Depois foi generalizado pra 'caminho que leva ao mar', e por isso há um bairro e uma praia em Santos (SP) com esse nome. Voltando a Curitiba, obviamente essa é também a origem do nome do bairro Alto Boqueirão, nitidamente uma 'filial' do Boqueirão.

A propriedade rural vizinha a “Fazenda Boqueirão” tinha sua cerca adornada por diversos exemplares de uma planta chamada xaxim, que então nomeou o bairro, também na Zona Sul, que fica do outro lado da Rua Cristiano Strobel. Vamos seguir agora a Marechal em direção a Linha Verde. Os bairros Hauer e Fanny, que são vizinhos, separados pela Linha Verde, homenageiam a família Hauer, imigrantes alemães e piorneiros na região. Há rumores que eles grilaram diversas terras públicas, não posso confirmar porque não estudei o caso. Mas é bem provável, pela fortuna que amealharam em pouco tempo, existe até um centro comercial no Batel de propriedade deles.
O que é fato é que eles se estabeleceram na região e a colonizaram, tivessem amigos influentes na prefeitura ou não. O patriarca era Roberto Hauer (há uma rua com seu nome), e sua esposa se chamava (ou era apelidada, não sei) Fanny Hauer, e o bairro Vila Fanny é em sua homenagem. A Fanny (esse é o nome oficial do bairro, o 'Vila' foi extinto em 1974) tem uma parte chamada Vila Guilhermina, há até um ônibus com esse nome que sai da Praça Rui Barbosa. Guilhermina é outra representante feminina da família Hauer.

Ali perto, o Novo Mundo teve como primeira denominação 'Planta Kawasinski'. Pelo nome, a origem só pode ser polonesa. 'Armazém Novo Mundo' era o nome de um mercadinho que havia por ali, fundado exatamente por um imigrante europeu, oriundo do 'velho mundo'. Com o tempo, todo o bairro ficou conhecido assim. Todos os bairros citados do Boqueirão até aqui ficam na Zona Sul.

O Parolin, ali perto mas já na Zona Central, também é o sobrenome de uma família de pioneiros europeus da região. No caso, os Parolin eram italianos.
Do outro lado da Marechal Floriano, também na zona Central, está o Prado Velho. Antigamente, o jóquei de Curitiba era onde está localizada a PUC. As arquibancadas eram naquela construção que há logo a direita do portão principal da universidade. Bem em frente, há a Rua Jóquei Clube. Com a inauguração da Hípica no Tarumã (Zona Leste), a região passou a ser conhecida como a do 'prado velho'.

Rebouças, o bairro vizinho, também na Z/C, homenageia dois irmãos Antônio Pereira Rebouças Filho e André Pinto Rebouças. Eles eram negros, nascidos na Bahia, netos de escrava. Se formaram engenheiros, e assim como um terceiro irmão, José. Todos eram abolicionistas. A rua Engenheiros Rebouças é em homenagem a eles. Comumente, ela é grafada errada como Engenheiro Rebouças, no singular, mas o correto é no plural. O motivo de terem nomeado um bairro e uma de suas principais vias é porque foram eles que projetaram a ferrovia Curitiba- Paranaguá, feito que parecia impossível a época, em 1886. Mas os Rebouças eram tenazes, e descobriram novas técnicas, que espantaram a todos. André também ficou famoso por ter planejado o sistema que levou saneamento básico a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, no fim do século 19. Foi também deputado, advogado e conselheiro do imperador Dom Pedro 2º.

Voltemos a Zona Sul, na extremidade da cidade. A origem do nome Umbará se deve a que o local foi colonizado por europeus, que têm dificuldade em pronunciar corretamente a letra “R”, especialmente as pessoas mais velhas. Quando ainda era área rural (boa parte dele ainda é), o Umbará, quando chovia, se tornava intransitável, devido ao barro. Tudo virava um barral, que os polacos pronunciavam “um baral”. Em outra oportunidade escreverei mais sobre o Umbará, mas adianto que o CT do Atlético é conhecido erroneamente por CT do Umbará, pois está localizado no vizinho bairro do Sítio Cercado. Já que estamos por aqui, digo-lhes que o Sítio Cercado tem esse nome porque na origem era uma fazenda que tinha seus limites delimitados por rios, respectivamente o Arroio Cercado, a norte e noroeste, e o Ribeirão dos Padilhas, a leste e nordeste. Também escreverei mais sobre esse bairro no futuro.

Do outro lado da cidade, questões de diferentes pronúncias entre os europeus nomearam o bairro do Bacacheri, na Zona Norte. Quando ainda haviam sítios por lá, um deles tinha uma vaca chamada “Cherry”, que significa querida, em francês. Os espanhóis não conseguem pronunciar o “V”, o fazem como se fosse “B”. Por isso pode-se grafar a capital de Cuba como Havana ou Habana, pois dá no mesmo no idioma dos que lá habitam. Na Zona sul de Santiago do Chile, há um bairro cujas ruas homenageiam as cidades brasileiras. Uma delas é a Rua Curitiva, já que em espanhol Curitiba ou Curitiva se pronuncia igualmente 'curitiba'. Enfim, algum espanhol ou descendente chamava a simpática vaca de 'baca Cherry', e deu no que deu.
Isso é amplamente conhecido. Poucos anos atrás, alias, a câmara de vereadores aprovou um projeto pra colocar uma enorme vaca na entrada do bairro. Beto Richa vetou, sob pressão dos comerciantes. Mas nem todos eles eram contrários a ideia. Aproveitando a carona do destaque do tema na mídia, uma auto-escola colocou a escultura de uma vaca em tamanho real na Avenida Monteiro Tourinho, logo após a linha do trem, entrada do bairro pra quem vem do Cabral. Ficou ali alguns meses.

O que pouca gente sabe é que o Bacacheri já se chamou 'Colônia Argelina', devido ao fato que ali se instalaram alguns franceses na época que o bairro ainda era apenas área rural. A maioria desses franceses havia morado antes na Argélia, colônia da França na época.
….....
Por hora é suficiente. Deixo vocês com algumas fotos não tão atuais de Curitiba. A primeira mostra a Rua Tijucas do Sul, coluna vertebral do Bairro Novo (Sítio Cercado, Zona Sul), em 2000. Todos aqueles espaços vazios hoje estão ocupados por prédios.

A segunda é exatamente a ferrovia que André e Antônio Rebouças projetaram. Sobre a Rua João Negrão, no bairro da Zona Central que leva o nome dos irmãos, há a famosa Ponte Preta, aquela mesma que um motorista da Linha Turismo bateu. Fazendo um pequeno adendo sobre esse caso, sem querer justificar o acidente, mas apenas relatando o porque ele ocorreu. Quando a linha era operada por ônibus de apenas um andar, o trajeto passava por ali. Foi desviado para os fundos do 'shopping' Estação exatamente porque a ponte não comporta veículos mais altos. Só que o motorista era folguista, ou seja, ali não era seu trabalho diário. Então, lhe deu um branco, e ele esqueceu que o roteiro havia mudado.

Certamente ele não foi o único que se chocou contra essa ponte, eu mesmo presenciei um caminhão que se acidentou lá esse ano. E basta passar por baixo dela e ver a quantia de arranhões que há pra se perceber que bater ali é muito mais comum do que se pensa. Dessa vez houve um destaque apenas porque era um ônibus com turistas, e não caminhões, que são as maiores vítimas da Ponte Preta.

Ela, alias, só tem valor histórico, não é mais utilizada há muitas e muitas décadas, desde a inauguração da Rodoferroviária. Então a prefeitura podia elevá-la em um metro, que permitiria a passagem de caminhões e ônibus 2 andares em seu vão.
A foto que lhes envio é de 1999. Os mais velhos vão se lembrar que da maria fumaça que havia por ali. Assim como a ponte, essa locomotiva não estava em operação, era apenas pra compor o cenário. Escolhi essa foto também em homenagem aos que como eu gostam de ônibus. Não há como não reparar no Monobloco Mercedes 0-371 da Cristo Rei, que estava escrito “Expresso” na lateral, de acordo com a reformulação adotada em 1992. Observem também que a esquerda há um Del Rey ou Belina ainda com placa amarela, “BP-1563”, aparentemente.

Paz a todos.
“Deus proverá”
Bairro Novo (Sítio Cercado) Zona Sul











Rebouças Zona Central