Chega de lavagem cerebral: O transporte de Curitiba é ruim
Por: Coré-Etuba M. da LuzBom dia.
Como todos que utilizam transporte coletivo em Curitiba já perceberam, a qualidade do mesmo em nossa cidade caiu vertiginosamente na última década. E a causa é muito simples:
CURITIBA DEVERIA TER 400 ÔNIBUS A MAIS EM CIRCULAÇÃO.
Nos últimos 16 anos, só um terminal foi inaugurado na capital, o do Caiuá, na Cidade Industrial (Zona Oeste), que aliás é menor de todos. E isso já foi há 11 anos. Alguns outros foram construídos na região metropolitana, em Colombo e Almirante Tamandaré, mas as obras são do governo estadual. A prefeitura parece achar que não há mais necessidade de ampliar o sistema.
Em Curitiba, que na opinião de alguns imbecis é uma “cidade de 1º mundo”, no entanto, as coisas são bem diferentes.
Se for depender da vontade do Beto Richa, acho que só nosso tetra-tetra-tetra neto poderá andar de metrô. Talvez para a 5ª copa do mundo realizada no Brasil, em 2230, possamos ter a esperança de chegar ao estádio em um modo mais confortável que esmagados nos ônibus.
E isso é uma opção política. Várias cidades usam os trilhos que não servem mais para transporte de cargas ou passageiros em longas distâncias para suporte de trens urbanos. Posso citar os casos de Teresina, João Pessoa, Maceió e Natal no Nordeste e de Porto Alegre aqui no Sul. O trensurb gaúcho foi implantado em 1980, assim que o ramal de longa distância entre a capital e Caxias do Sul foi desativado. Aproveitaram os trilhos que já estavam feitos e cidade ganhou um transporte capaz de atender a alta demanda em sua área mais urbanizada e industrializada, o eixo Porto Alegre-Novo Hamburgo.
Aqui ocorre o oposto. Há uma cegueira que nos faz insistir que o sistema apenas de ônibus é suficiente, o que não encontra paralelo em lugar nenhum do mundo. Os mais velhos vão se lembrar da linha férrea que ia pela rua João Negrão (por isso ainda há perto do Paiol uma ponte com as rodas de um trem) e ao cruzar a Marechal Floriano seguia em direção ao Portão, e de lá, via Fazendinha, CIC e Tatuquara, chegava em Araucária. Assim que foi desativada, a linha foi suprimida, numa estupidez indescritível. Em partes do antigo traçado, surgiu em 1991 a invasão da Ferrovila. Só que se o que já estava pronto tivesse sido aproveitado racionalmente, como se faz em outras cidades de norte a sul do país, não haveria invasão alguma. O traçado seria perfeito para um trem de subúrbio, pois conecta polos de empregos, industriais no CIC e Araucária e do setor de serviços no Portão e entorno da PUC, com regiões dormitório, o Tatuquara e a própria Cidade Industrial. Já estava pronto, exigindo baixíssimo investimento e impacto ambiental. Cidades tão diferentes como Teresina e Porto Alegre adotam essa solução. Mas Curitiba julga saber mais que todo mundo e desmantela as linhas assim que são desativadas, forçando a população a ser prensada nos bi-articulados pra fazer o mesmo trajeto Cidade Industrial-Portão, por exemplo, que seria feito de forma mas rápida, confortável e barata dentro de um trem.
Fim da primeira parte. Continua.
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Contra números não há argumentos
(conclusão do anterior)
Concluindo:
Para ser justo, devo relatar que em minhas pesquisas, achei uma cidade que também tem menos que um ônibus por mil pessoas, e tampouco dispõe de rede ferroviária. Na Grande Goiânia, 1,9 milhões de pessoas têm a disposição apenas 1,4 mil veículos. Não por acaso, é quase a mesma proporção daqui. (O município de Goiânia tem 1,2 milhão, mas não sei o número de ônibus porque lá não há sistema municipal independente, a rede da capital se estende aos municípios vizinhos).
O mesmo vale para Curitiba. Veja essa notícia, extraída do próprio sítio oficial da prefeitura:
Sempre o destaque para a “renovação”. A própria formulação do texto é muito reveladora. São 7 parágrafos falando da renovação da frota e apenas um da ampliação, que propositadamente foi colocado logo no começo pra causar mais impacto, seguindo a técnica de 'a primeira impressão é a que fica'. Oficialmente, isso é conhecido por mensagem subliminar. Numa linguagem sem eufemismos técnicos, é pura e simplesmente lavagem cerebral.
A Urbs sempre dava a resposta padrão de que “os estudos técnicos dizem que o número de veículos é suficiente para a demanda, mas que novos estudos seriam feitos para analisar a viabilidade de, eventualmente, um dia aumentar o número de ônibus”. Cansados de serem feitos de idiota, os moradores do local adotaram nova abordagem: começou-se a apedrejar os veículos que não paravam no ponto. Bastaram uns 4 dias seguidos que a linha Rio Bonito foi criada. Isso 'apressou os estudos técnicos', digamos assim.
Ao contar isso pra vocês, não tenho intenção de condenar essas pessoas. Antes de julgar, temos que pensar sinceramente o que faríamos no lugar deles. Se você morasse num desses locais e dependesse do ônibus para trabalhar, também não conseguiria adotar uma abordagem zen-budista. Você não iria, eu tenho certeza, perder passivamente o emprego, depois de ver todas as soluções pacíficas tentadas a exaustão, sendo todas ignoradas pelos homens do poder. Se morássemos lá, poderíamos até não usarmos nossa própria mão para atirar uma pedra, mas apoiaríamos nossos vizinhos que o fizessem. Quando o ser humano é confrontado com situações que ameaçam a sua sobrevivência, ele é obrigado a fazer escolhas difíceis. Tenhamos isso em mente, e não deixemos o preconceito de classe média interferir em nossa interpretação do problema. Fácil é para quem anda de carro condenar quem não tem nem sequer um ônibus para se deslocar. Não caiamos nessa armadilha.
Não quero também incentivar a violência. “Nada de positivo vem da violência”, é uma Lei Natural, e eu busco aplicar em minha vida. Estou apenas relatando o que ocorreu, e que me foi contado por quem mora lá. Não quero absolver nem condenar os que tomaram atitudes extremas, e sim mostrar que a cidade de Curitiba não passa de uma grande farsa. Mesmo na extremidade da Zona Sul da cidade, a única contemplada por ônibus a mais nas ruas, a ampliação não veio pela consciência política da classe dirigente, mas por que foram forçados a isso. Outras regiões, pela população ter outras opções (sacrificar boa parte do orçamento familiar na prestação de um automóvel), aceita-se mais resignadamente a sina de não poder contar com transporte de qualidade.
A opção política deliberada de ter um sistema de õnibus ruim debilita o orçamento da classe média baixa em favor dos bancos e montadoras de automóveis. Mais carros nas ruas representam mais congestionamentos, mais poluição, mais aquecimento global, que gera mais secas, enchentes, ciclones. Nada que pareça incomodar a propaganda da capital 'ecológica'.
A opção política deliberada de ter um sistema de õnibus ruim debilita o orçamento da classe média baixa em favor dos bancos e montadoras de automóveis. Mais carros nas ruas representam mais congestionamentos, mais poluição, mais aquecimento global, que gera mais secas, enchentes, ciclones. Nada que pareça incomodar a propaganda da capital 'ecológica'.
E quero também chamar a atenção para o fato que, segundo a própria prefeitura, a ampliação do número de veículos se restringe a região do Tatuquara (agora você já sabe como foi conseguido esse 'privilégio' tatuquarense). Tudo bem que lá cresce 3,88% ao ano. Mas o resto da cidade, embora num ritmo mais lento, também aumenta: 1,62% anual. São 30 mil novos curitibanos por ano, por nascimento e imigração. E as regiões além do extremo sul igualmente necessitam de mais ônibus circulando, pois também se tornam maiores a cada dia que passa. A diferença é que por termos outras opções, não recorremos as pedras. Aí chegamos no 'x' da questão. A prefeitura só entende a barbárie. Bem adequado a uma cidade que se julga uma das mais civilizadas do mundo.
Enfim, são notórios os efeitos do sucateamento da rede de transportes da cidade. Os efeitos são sentidos por todos nós, até pelos que só se deslocam de carro, mas principalmente pelos que ainda tentam resistir a dirigir diariamente. No mundo da fantasia que é o Centro Cívico, no entanto, a prefeitura insiste na “Grande Mentira”. Veja essa outra noticia, onde o Extremo Sul não é citado.
Richa entrega mais 127 ônibus para renovação da frota
Se utiliza 6 vezes o termo 'renovação', inclusive no título, e pouco se fala em ampliação. No melhor estilo '1984', querem dizer que o sucateamento da rede de transportes está diminuindo a poluição. Definitivamente, 'guerra é paz, ignorância é sabedoria'. George Orwell já sabia.
Se o metrô não vai mesmo sair, e se os trilhos do trem vão ser desativados, numa estupidez e orgulho inexplicáveis, então que ao menos se invista de verdade nos ônibus. Como você já deve ter notado, quem mais elogia a eficiência do transporte de Curitiba é quem menos o utiliza.
Os arroubos mais eloquentes partem da mídia, aparato político, turistas e a classe média alta. Quanto mais longe você fica dos coletivos de nossa cidade, melhor eles lhe parecem. Chegou a hora dessa hipocrisia acabar. Não quero forçar essas pessoas a andar de ônibus. Aliás, não quero forçar ninguém a nada, cada um siga sua própria consciência. Mas o dever dos que sabem a verdade é propaga-la, sem se render ao jogo sujo da mentira dominante, conveniente para os poderosos. Foi para jugar luz na lavagem cerebral que o sistema de transporte de Curitiba que escrevi tudo isso.
Os arroubos mais eloquentes partem da mídia, aparato político, turistas e a classe média alta. Quanto mais longe você fica dos coletivos de nossa cidade, melhor eles lhe parecem. Chegou a hora dessa hipocrisia acabar. Não quero forçar essas pessoas a andar de ônibus. Aliás, não quero forçar ninguém a nada, cada um siga sua própria consciência. Mas o dever dos que sabem a verdade é propaga-la, sem se render ao jogo sujo da mentira dominante, conveniente para os poderosos. Foi para jugar luz na lavagem cerebral que o sistema de transporte de Curitiba que escrevi tudo isso.
Deus abençoe toda a humanidade.
Mato a cobra e mostro o pau. Contra números não há argumentos.
população | ônibus | ônibus/ mil pessoas | metrô | trem | |
São Paulo | 11 milhões | 15 mil | 1,36 | 62 km operando + 25 em obras | 261 km operando |
Porto Alegre | 1,4 milhão | 1,9 mil | 1,34 | - | 33 km operando + 9 em obras |
Brasília | 2,5 milhões | 3,0 mil | 1,2O | 46 km operando + 2 em obras | 8 km em obras |
Belo Horizonte | 2,4 milhões | 2,8 mil | 1,16 | - | 28 km operando +16 em obras |
Salvador | 2,8 milhões | 2,5 mil | 0,89 | 20 km em obras | 13 km operando |
Fortaleza | 2,5 milhões | 1,8 mil | 0,72 | 19 km em obras | 43 km operando (passarão a ser metrô após obras) |
Curitiba | 1,9 milhão | 1,5 mil | 0,78 | A esperança é a última que morre.... | |
Grande Goiânia | 1,9 milhão | 1,4 mil | 0,73 | A esperança é a última que morre.... | |
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