Pesquisar nesta mnemônica

Translate

Print Friendly Version of this pagePrint Get a PDF version of this webpagePDF

18 de set de 2011

Uma grande série sobre Curitiba 18


Direto da Zona Vermelha: a Império não tem Comando sul
[É sobre a cidade de Curitiba]


Por: Coré-Etuba M. da Luz


Então.


A torcida organizada do Coritiba, a Império Alviverde, não tem Comando Sul, como é notório. De fato não tem. Tá aqui a prova. Veja o emblema do Comando Pinheirinho. Olhe os bairros que ele engloba, muito além do Pinheirinho. Boqueirão e Alto Boqueirão não entraram porque fazem parte do Comando Boqueirão.


Eu sei, de uns 3 anos pra cá, começaram a aparecer umas faixas de “Império Sul”. Mas é só "caozagem". Tudo ocorreu depois que a Fúria se re-organizou e passou a levar 5 faixas pro estádio: 'Fúria Sul', 'Fúria Oeste', 'Fúria Central', 'Fúria Norte' e 'Fúria Leste'. Aí os verdes pensaram que perder até da Fúria já era demais, e vieram com essa farsa de Império Sul. Mas nunca pegou, sendo sempre isso, uma farsa.


Consideremos que não seja fachada, que a Império Sul exista de verdade. Que seja. Cara, ainda assim a “Império Sul” data de 2007 (????????). Veja bem, dois mil e sete, se você contar em dias ainda não tá no quarto dígito que existe Império Sul – se é que existe. E mesmo assim não pegou de fato, pois o Comando Pinheirinho ainda se faz anunciar como legítimo representante dos verdes na região mais vermelha da cidade.


Vou ser generoso e dar novamente o benefício da dúvida a eles. Digamos que a Império Sul exista e tenha tomado o lugar do Comando Pinheirinho. Por que então o nome é Império Sul e não Comando Sul? Afinal, é assim que a Império designa suas divisões. Os comandos Norte, Leste, Central e Oeste são exatamente isso, Comando Norte, Comando Leste, etc. Isso é muito significativo.


Senão vejamos. “Eu sou do Comando e não sou comandado”, diz o refrão da lei da rua. Exatamente porque o mantra 'Comando', graças ao Comando Vermelho, representa uma organização forte, unida, se preciso violenta, que domina seu território e lá impõe sua lei. Se a Império fosse uma organização pacifista, que abomina a violência, teriam razão em abdicar do termo 'comando'. Ambas as proposições são falsas. É uma torcida extremamente violenta, como todos sabemos, e exatamente por isso se divide em 'comandos'. Menos aqui, nesse lado da ponte, a quebrada onde a parada é mais quente.


Isto posto, só resta uma explicação, e é chegada a hora de dizermos com todas as letras:

A Império tem medo de formar um comando na Zona Sul, exatamente porque aqui ela não comanda nada. Na Sul, essa torcida não é império, é província, e das mais atrasadas.


Eu sei, ela tem alguma presença no Boqueirão, Pinheirinho e Capão Raso – exatamente as partes mais velhas da Zona Sul. Toquemos então nessa questão, que é a chave pra entender tudo.



Como é notório, Curitiba tem um divisor de águas em sua história, e esse é a criação do Bairro Novo, em 1992.
Até então, a cidade era bem homogênea, em seus 4 pontos cardeais. É claro que sempre houve algumas favelas e bairros de classe alta, mas eles não alteravam a regra geral. Pra todos os lados, a parte central era mais rica, depois havia bairros de classe baixa, e por fim a periferia, mas pouco se podia distinguir a divisão entre as duas últimas.



O exemplo é Santa Cândida, onde, parafraseando Marcelo D2, 'o mundo começou, pelo menos pra mim'. Compare Santa Cândida com Boa Vista, o bairro que a precede, nas duas dimensões: a espacial (tendo o Centro como referência) e a temporal (Boa Vista foi ocupada primeiro). Fora isso, os dois bairros eram muito parecidos. Boa Vista veio antes, Santa Cândida veio depois, mas não havia hiatos culturais. Santa Cândida aspirava tornar-se no futuro o que Boa Vista já era. Isso se repetia pra todos os lados: o Capão Raso veio antes e deu o exemplo, que o Pinheirinho seguia.


As diferenças, como disse, se baseavam em anterioridade, e não em cultura. Curitiba era bem homogênea e pouco violenta. Alguns bairros eram mais distantes do Centro, mas o Centro unia toda a cidade, todos os bairros gravitavam em torno dela, não havia 'Centros' paralelos nem 'outro lado' de pontes. E, repito, pouca diferença havia entre a Zona Sul e outras regiões.

Curitiba era por isso uma cidade bem distinta das outras metrópoles brasileiras.
Em 1994, Curitiba tinha cerca de 50 assassinatos por ano, e São Paulo 5 mil, cem vezes mais, ou seja, quebra a escala de qualquer comparação. Hoje cada uma tem cerca de mil. É isso mesmo. São Paulo reduziu em 80% seus assassinatos e Curitiba aumentou em 1000% (mil por cento, exatamente isso).



E porque ocorreu isso? Vieram os anos 90 e tudo mudou. Surgiu a “Curitiba Sul”, ou “Nova Curitiba”
Quebrou-se então a linearidade, nas duas dimensões. O Sítio Cercado não é parecido com o que era o Boqueirão há 20 anos, nem o Tatuquara com o Pinheirinho. O que são hoje o Sítio Cercado e o Tatuquara não guarda qualquer semelhança com o que esses dois bairros um dia foram, em qualquer tempo de sua história.


Se há fluxo, é em sentido inverso. O Extremo Sul agora quem estabelece o modelo, e o Médio Sul (e também outras partes da cidade) é que imita. Não em todas as partes, claro. Pedaços do Boqueirão e Xaxim ficam parecidos com o Tatuquara, mas outros ficam similares ao Jardim das Américas.


Quebrou-se a linearidade, temporal e espacial. Em todas as dimensões:o subúrbio ainda imita o mais central, mas o central também imita o mais distante. O Sítio nunca será parecido com o Boqueirão. Aí se quebram os limites de tempo e espaço, e cria-se o conceito de 'da ponte pra cá': uma mudança brusca no estilo de vida, comum há décadas em Porto Alegre e as capitais do Sudeste e Nordeste, mas desconhecido em Curitiba até os anos 80. As capitais do Norte e Centro-Oeste também são novatas nesse conceito de metrópole do terceiro mundo, pois sua explosão demográfica, como em Curitiba, data das últimas duas décadas.


O fato é que agora, distintamente da cidade homogênea e de maioria coxa de todo o século 20, bairros vizinhos geograficamente parecem que vivem em galáxias diferentes, em dimensões diferentes. Isso porque quebrou-se o monopólio do Centro. A extremidade da Zona Sul não olha pro Centro, olha pra Zona Sul. São mundos diferentes.

Há tatuquarenses que não conhecem a Rua XV de Novembro, e não estou exagerando. Curitiba caminha pra ser de fato metrópole, com vários polos, ou vários Centros, se preferir.

Veja São Paulo. A Lapa é o Centro de milhões de pessoas que vivem nas Zonas Oeste e Norte. Se você colocar o eixo Lapa-Pinheiros, pode colocar boa parte da Zona Sul aí. Santo Amaro cuida do resto da Sul, o eixo Penha-Tatuapé é a referência de milhões na Zona Leste e Santana se encarrega da outra parte da Norte.



No Rio ocorre o mesmo. O eixo Tijuca-Vila Izabel é o Centro pra toda Zona Norte e Baixada, o eixo Jacarepaguá-Barra fica com a Zona Oeste e Niterói cuida de tudo que há do outro lado da baía, e não é pouca gente. Poderia também falar sobre BH e Salvador, mas acho que não é necessário, já pegou a ideia.


Curitiba, entretanto, não tinha isso até duas décadas atrás. É claro que sempre houve comércio na Marechal e República Argentina, assim como há comércio e bancos na Baixada Fluminense e subúrbios paulistanos. Mas entende o que eu quero dizer, não? Não havia duas "Curitibas", não havia quem contestasse o domínio do Centro.


Agora há. A Nova Curitiba convive com a velha, mas não são a mesma coisa.
E o que isso tem a ver com futebol? Tudo. A massa que mudou a cara de Curitiba torce majoritariamente pro Atlético. Até o início dos anos 90, a torcida coxa era maioria indiscutível. Hoje, é comprovado por inúmeras pesquisas que a torcida rubro-negra é maior. E o que virou a balança foi o Extremo Sul. 



Como todos sabem, eu sou paranista, ou seja, a disputa Coritiba x Atlético me é indiferente, desprezo ambos. Relato o que vejo, e estou dando minha opinião, que não vem carregada de forças emocionais, pois pra mim tanto faz qual dos dois tem a maior torcida. Quero apenas fazer um paralelo entre as energias, a vibração das cores com a renda e classe social.


Isto posto, vamos continuar. Claro que a geografia não foi o único fator. O título de 01 foi o principal [refere-se ao campeonato  brasileiro conquistado pelo Atlético-PR]. Só que ele não seria suficiente apenas na 'velha' Curitiba. Mas com novas vilas, loteamentos e favelas surgindo dia a dia na extremidade meridional ficou viável a virada em favor do Atlético, pois vieram centenas de milhares de pessoas pra cá que em sua maioria não tinham time ainda na capital. Como é sabido, o interior do Paraná prefere times paulistas ou gaúchos. Os que vieram de outros estados então que eram mais virgens ainda na disputa da dupla Atle-tiba. E foi aí que tudo se encaixou, a massa que quebrou a linearidade do fluxo energético uniforme Centro-Subúrbio chegando junto com o título de 2001.


Tudo somado, o Coxa ficou pra trás. Pelo menos no Extremo Sul. E é por isso que a Império não tem Comando Sul. A Império Sul é uma farsa. Não conseguiu sequer suplantar o Comando Pinheirinho, como essa imagem prova.


Mesmo que demos aos verdes 2 vezes o benefício da dúvida, processo duvidoso por natureza, ainda assim ninguém contesta que a Império Sul só apareceu em 2007. O Bairro Novo, que inverteu o fluxo, é de 1992. Centenas de vilas e loteamentos o seguiram, no Sítio Cercado, Tatuquara, Campo de Santana e Ganchinho. A Império só resolveu fingir que existe na Zona Sul 15 anos depois, quando a situação estava bem assentada, definitivamente definindo a Zona Sul como a Zona Vermelha. Era tarde demais.
.......


Ia escrever só um pouco sobre as torcidas e acabei fazendo um texto bem mais longo, envolvendo uma escala amais ampla. Era preciso, pra por no contexto. Uma imagem vale por mil palavras, mas assim podemos entender causa e efeito.


Esse é meu relato, direto da Zona Vermelha. 

Assim É.

Que Deus ilumine a todos.


Não tem comando sul


Nenhum comentário:

Postar um comentário

PARE, PENSE, TOQUE E, SE NECESSÁRIO, COMENTE!
Obs: Haverá MODERAÇÃO do seu comentário!