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13 de set de 2011

Uma grande série sobre Curitiba 4

Morro do Querosene, quer dizer, Jardim Social
Por: Coré-Etuba M. da Luz


Boa tarde a todos.


Vamos falar um pouco das origens e fatos curiosos dos nomes dos bairros e municípios da cidade. Todos os bairros de Curitiba tiveram seus nomes e limites definidos em definitivo no ano de 1974. De lá pra cá a única mudança foi em 1992, quando o bairro Capanema (Zona Leste) mudou seu nome, após plebiscito popular, pra Jardim Botânico. Não houve alteração nos limites.


Dos antigos nomes que irei falar, alguns são recentes, duraram até 1974, quando uma lei estabeleceu a nomenclatura atual, como acabei de dizer. Outros, entanto, são bem antigos, remontam a época da colonização. Darei sempre as informações mais completas que eu possuir. Alias, quem souber qualquer curiosidade sobre o nome de locais de Curitiba (incluindo Região Metropolitana, que daqui por diante abreviarei por RM) pode me mandar que repassarei a todos.


Vamos lá então.
Conforme o título indica, o Jardim Social (Zona Leste), antes de ser urbanizado era chamado de Morro do Querosene. O Pinheirinho (Zona Sul) era conhecido por Capão dos Porcos.



O bairro da Santa Quitéria (Zona Oeste) quase se chamou Carmela Dutra, homenagem Carmela Teles Leite Dutra, esposa do presidente da república Eurico Gaspar Dutra. Optou-se pelo nome da santa, embora meio que se 'descobriu uma santa pra cobrir outra', já que a ex-primeira dama brasileira tinha o apelido de 'dona Santinha'. Enfim, 'Santa Quitéria' ao fim prevaleceu, e Carmela Dutra nomeou um conjunto do bairro e uma linha de ônibus, que originalmente acabava ali mas foi estendida, tendo o ponto final no vizinho bairro do Campo Comprido (também na Z/O).

Timoneira é nome antigo do município de Almirante Tamandaré (Zona Norte – RM), e Tindiquera é a denominação anterior de Araucária (Zona Sul – RM). Esse último todos os que já foram fazer setores comigo e com o Osvaldo por lá sabem, uma vez que a empresa de ônibus municipal (do mesmo dono da Viação Araucária, intermunicipal) chama-se Tindiquera, como já comentei várias vezes.

Todos conhecem o fato que Piraquara é o município 'mãe' de Pinhais, mas o que a maioria talvez ignore é que São José dos Pinhais é que é a 'avó', e o nome da 'neta' Pinhais remonta a isso. É de domínio público que Pinhais se separou de Piraquara em 1992. Não tão notório é que Piraquara por sua vez já havia se separado de São José dos Pinhais, algumas décadas antes. Os 3 municípios pertencem a Zona Leste da Grande Curitiba.

Pra entender a genealogia de Pinhais, voltemos um pouco no tempo, até a primeira metade do século 20, quando as viagens entre a Capital e o Litoral eram feitas de trem, na ferrovia projetada pelos irmãos Rebouças, que falarei mais adiante. Pinhais pertencia a Piraquara, e ambos pertenciam a São José dos Pinhais. Havia uma estação de trem perto de onde hoje é o autódromo, chamada “Estação São José dos Pinhais”, que com o tempo passou a ser conhecida por “Estação Pinhais”. Quando Piraquara se separou de São José dos Pinhais, a região mais próxima da divisa com Curitiba se tornou o distrito de Pinhais, que por sua vez na década de 90 também se tornou independente.
Piraquara, alias, significa 'buraco do peixe', em tupi-guarani. Vamos decompor a palavra. 'Pira' significa peixe. Piracicaba (SP) é o 'lugar que o peixe pára', referência ao salto do rio, bem no Centro da cidade, um lugar muito bonito, alias, malgrado a poluição do Rio Piracicaba. 'Quara' é buraco.

Com isso, vocês deduzem que Tatuquara, na Zona Sul, é o 'buraco do tatu', ou talvez 'toca do tatu', numa tradução mais livre. O nome do animal em português foi importado do tupi sem modificações.

Continuando na Zona Sul, o bairro em que vivo, o Boqueirão, se deve uma grande propriedade rural chamada “Fazenda Boqueirão”. Perto do campo dos times de futebol suburbanos do Boqueirão e do Vila Hauer (são no mesmo local, e apesar de cada um levar o nome de um bairro, ambos estão localizados no Boqueirão, e não na Vila Hauer) existe uma creche da prefeitura chamada Fazenda Boqueirão.

Quanto a origem da palavra, boqueirão significa exatamente 'grande boca'. Esse termo passou a ser utilizado pra indicar um vale formado por um rio, praia ou canal.

Depois foi generalizado pra 'caminho que leva ao mar', e por isso há um bairro e uma praia em Santos (SP) com esse nome. Voltando a Curitiba, obviamente essa é também a origem do nome do bairro Alto Boqueirão, nitidamente uma 'filial' do Boqueirão.

A propriedade rural vizinha a “Fazenda Boqueirão” tinha sua cerca adornada por diversos exemplares de uma planta chamada xaxim, que então nomeou o bairro, também na Zona Sul, que fica do outro lado da Rua Cristiano Strobel. Vamos seguir agora a Marechal em direção a Linha Verde. Os bairros Hauer e Fanny, que são vizinhos, separados pela Linha Verde, homenageiam a família Hauer, imigrantes alemães e piorneiros na região. Há rumores que eles grilaram diversas terras públicas, não posso confirmar porque não estudei o caso. Mas é bem provável, pela fortuna que amealharam em pouco tempo, existe até um centro comercial no Batel de propriedade deles.
O que é fato é que eles se estabeleceram na região e a colonizaram, tivessem amigos influentes na prefeitura ou não. O patriarca era Roberto Hauer (há uma rua com seu nome), e sua esposa se chamava (ou era apelidada, não sei) Fanny Hauer, e o bairro Vila Fanny é em sua homenagem. A Fanny (esse é o nome oficial do bairro, o 'Vila' foi extinto em 1974) tem uma parte chamada Vila Guilhermina, há até um ônibus com esse nome que sai da Praça Rui Barbosa. Guilhermina é outra representante feminina da família Hauer.

Ali perto, o Novo Mundo teve como primeira denominação 'Planta Kawasinski'. Pelo nome, a origem só pode ser polonesa. 'Armazém Novo Mundo' era o nome de um mercadinho que havia por ali, fundado exatamente por um imigrante europeu, oriundo do 'velho mundo'. Com o tempo, todo o bairro ficou conhecido assim. Todos os bairros citados do Boqueirão até aqui ficam na Zona Sul.

O Parolin, ali perto mas já na Zona Central, também é o sobrenome de uma família de pioneiros europeus da região. No caso, os Parolin eram italianos.
Do outro lado da Marechal Floriano, também na zona Central, está o Prado Velho. Antigamente, o jóquei de Curitiba era onde está localizada a PUC. As arquibancadas eram naquela construção que há logo a direita do portão principal da universidade. Bem em frente, há a Rua Jóquei Clube. Com a inauguração da Hípica no Tarumã (Zona Leste), a região passou a ser conhecida como a do 'prado velho'.

Rebouças, o bairro vizinho, também na Z/C, homenageia dois irmãos Antônio Pereira Rebouças Filho e André Pinto Rebouças. Eles eram negros, nascidos na Bahia, netos de escrava. Se formaram engenheiros, e assim como um terceiro irmão, José. Todos eram abolicionistas. A rua Engenheiros Rebouças é em homenagem a eles. Comumente, ela é grafada errada como Engenheiro Rebouças, no singular, mas o correto é no plural. O motivo de terem nomeado um bairro e uma de suas principais vias é porque foram eles que projetaram a ferrovia Curitiba- Paranaguá, feito que parecia impossível a época, em 1886. Mas os Rebouças eram tenazes, e descobriram novas técnicas, que espantaram a todos. André também ficou famoso por ter planejado o sistema que levou saneamento básico a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, no fim do século 19. Foi também deputado, advogado e conselheiro do imperador Dom Pedro 2º.

Voltemos a Zona Sul, na extremidade da cidade. A origem do nome Umbará se deve a que o local foi colonizado por europeus, que têm dificuldade em pronunciar corretamente a letra “R”, especialmente as pessoas mais velhas. Quando ainda era área rural (boa parte dele ainda é), o Umbará, quando chovia, se tornava intransitável, devido ao barro. Tudo virava um barral, que os polacos pronunciavam “um baral”. Em outra oportunidade escreverei mais sobre o Umbará, mas adianto que o CT do Atlético é conhecido erroneamente por CT do Umbará, pois está localizado no vizinho bairro do Sítio Cercado. Já que estamos por aqui, digo-lhes que o Sítio Cercado tem esse nome porque na origem era uma fazenda que tinha seus limites delimitados por rios, respectivamente o Arroio Cercado, a norte e noroeste, e o Ribeirão dos Padilhas, a leste e nordeste. Também escreverei mais sobre esse bairro no futuro.

Do outro lado da cidade, questões de diferentes pronúncias entre os europeus nomearam o bairro do Bacacheri, na Zona Norte. Quando ainda haviam sítios por lá, um deles tinha uma vaca chamada “Cherry”, que significa querida, em francês. Os espanhóis não conseguem pronunciar o “V”, o fazem como se fosse “B”. Por isso pode-se grafar a capital de Cuba como Havana ou Habana, pois dá no mesmo no idioma dos que lá habitam. Na Zona sul de Santiago do Chile, há um bairro cujas ruas homenageiam as cidades brasileiras. Uma delas é a Rua Curitiva, já que em espanhol Curitiba ou Curitiva se pronuncia igualmente 'curitiba'. Enfim, algum espanhol ou descendente chamava a simpática vaca de 'baca Cherry', e deu no que deu.
Isso é amplamente conhecido. Poucos anos atrás, alias, a câmara de vereadores aprovou um projeto pra colocar uma enorme vaca na entrada do bairro. Beto Richa vetou, sob pressão dos comerciantes. Mas nem todos eles eram contrários a ideia. Aproveitando a carona do destaque do tema na mídia, uma auto-escola colocou a escultura de uma vaca em tamanho real na Avenida Monteiro Tourinho, logo após a linha do trem, entrada do bairro pra quem vem do Cabral. Ficou ali alguns meses.

O que pouca gente sabe é que o Bacacheri já se chamou 'Colônia Argelina', devido ao fato que ali se instalaram alguns franceses na época que o bairro ainda era apenas área rural. A maioria desses franceses havia morado antes na Argélia, colônia da França na época.
….....
Por hora é suficiente. Deixo vocês com algumas fotos não tão atuais de Curitiba. A primeira mostra a Rua Tijucas do Sul, coluna vertebral do Bairro Novo (Sítio Cercado, Zona Sul), em 2000. Todos aqueles espaços vazios hoje estão ocupados por prédios.

A segunda é exatamente a ferrovia que André e Antônio Rebouças projetaram. Sobre a Rua João Negrão, no bairro da Zona Central que leva o nome dos irmãos, há a famosa Ponte Preta, aquela mesma que um motorista da Linha Turismo bateu. Fazendo um pequeno adendo sobre esse caso, sem querer justificar o acidente, mas apenas relatando o porque ele ocorreu. Quando a linha era operada por ônibus de apenas um andar, o trajeto passava por ali. Foi desviado para os fundos do 'shopping' Estação exatamente porque a ponte não comporta veículos mais altos. Só que o motorista era folguista, ou seja, ali não era seu trabalho diário. Então, lhe deu um branco, e ele esqueceu que o roteiro havia mudado.

Certamente ele não foi o único que se chocou contra essa ponte, eu mesmo presenciei um caminhão que se acidentou lá esse ano. E basta passar por baixo dela e ver a quantia de arranhões que há pra se perceber que bater ali é muito mais comum do que se pensa. Dessa vez houve um destaque apenas porque era um ônibus com turistas, e não caminhões, que são as maiores vítimas da Ponte Preta.

Ela, alias, só tem valor histórico, não é mais utilizada há muitas e muitas décadas, desde a inauguração da Rodoferroviária. Então a prefeitura podia elevá-la em um metro, que permitiria a passagem de caminhões e ônibus 2 andares em seu vão.
A foto que lhes envio é de 1999. Os mais velhos vão se lembrar que da maria fumaça que havia por ali. Assim como a ponte, essa locomotiva não estava em operação, era apenas pra compor o cenário. Escolhi essa foto também em homenagem aos que como eu gostam de ônibus. Não há como não reparar no Monobloco Mercedes 0-371 da Cristo Rei, que estava escrito “Expresso” na lateral, de acordo com a reformulação adotada em 1992. Observem também que a esquerda há um Del Rey ou Belina ainda com placa amarela, “BP-1563”, aparentemente.

Paz a todos.
“Deus proverá”
Bairro Novo (Sítio Cercado) Zona Sul











Rebouças Zona Central

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